quarta-feira, 18 de setembro de 2013

QUANTO MAIS A GENTE REZA, MAIS APARECEM FANTASMAS![1]

Este curso de psicologia, um dos mediadores para o cumprimento de um dos objetivos institucionais,  tem 43 anos e nesses anos muita coisa aconteceu! Participei, pelo menos, de setenta por cento deste tempo e, por tal razão, sinto-me autorizada a contar alguma coisa para vocês sobre este polêmico curso. Entretanto, este contar não será uma simples sequência histórica de acontecimentos, mas é resultado de uma compreensão forjada junto com alguns de meus pares e sob um referencial teórico, portanto sujeito a críticas e a outras análises, sempre bem vindas.

Feitas tais ressalvas, espero encontrar quem acredite no que eu tenho para contar.

Não tenho muitas dúvidas quando identifico que o referido Curso passou por três períodos muito bem delineados e que podem ser compreendidos à luz dos processos grupais. Minha dissertação de mestrado discorreu sobre a história e a memória deste curso de psicologia. 

O primeiro período que vai desde a abertura do curso de psicologia em 1969 até o final da década de setenta. A grande marca deste momento foi a  gestação de um espaço institucional onde cabia a paixão pelo ensinar e as diferenças.  Foi o período qualificado como a época de ouro do curso! Culmina com uma greve dos estudantes do Curso de Psicologia (e de outros cursos), em que várias reivindicações foram feitas, as quais mudaram os rumos da política institucional com conseqüências bastante sérias para a estrutura e para a identidade do curso de Psicologia.

O  segundo período chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente, quando se consolida o eclipse do curso e uma espécie de “guetização”  das disciplinas mais formadoras de opinião e mais voltadas para a crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho que movimentaram os primeiros anos do curso de psicologia.

O terceiro período, delimitado do final dos anos 80 até o início dos anos 2000, mostrou-se apático, sem sal nem pimenta,  prenhe de  atitudes encobertas,  demissão de professores e contratação de novos. O emblemático desse período foi a absoluta falta de transparência nas ações relativas ao Curso de Psicologia.

O quarto período, é nebuloso e dele não participei ativamente, mas de relance. Seria necessário alguns depoimentos para poder qualificá-lo assim ou assado. Portanto, este último período  não será aqui discutido.

Em 1969, o Brasil amargava o  período de ditadura militar instalada em 1964. Nessa época havia apenas três cursos de Psicologia em São Paulo, mas a iniciativa privada tomava fôlego e começava a ver na educação grandes possibilidades financeiras. Um novo curso de psicologia foi aberto no interior de São Paulo e foi convidado um bacharel de psicologia da Universidade de São Paulo para organizar e dar uma “cara” de Psicologia ao novo curso. Era o polonês. Este  convidou seus amigos: dois brasileiros, um japonês e um espanhol , que numa progressão, convidaram outros e outros colegas. Eles deviam ter uns 25 anos, não mais que isso!

O marco que possibilitou o encontro do iniciador e dos outros professores foi a busca de um ideal de educação e de intenção de desenvolver uma série de idéias em educação em Psicologia, visando fazer um curso de bom nível.

Kaës (1997) ensinou que no processo da construção do “nós” grupal, isto no momento de  deixar a série para formar o conjunto, é preciso denegar (deixar de fora) o específico de cada um, formando-se um pacto que exclui a diferença  e pode constituir uma defesa que não permite a individuação. É um momento delicado e específico na produção de estancamentos, cristalizações e estereotipias, pois não gera o novo.

No movimento histórico e no processo desse agrupamento específico, tudo parecia correr bem e se desdobrava num momento marcado pela unificação e integração do semelhante e exclusão dos diferentes, formando-se um contrato narcísico grupal. Este momento caracterizou-se pela formação das equipes de trabalho que se constituíram por semelhanças teórico-metodológicas (equipe de psicologia experimental, equipe de clínica, equipe de social, etc.) e pela exclusão do intruso, designado como inimigo que, nesse momento,  era sempre exterior ao curso, não estava na “outra” equipe diferente, mas em algo externo ao curso e que podia ameaçar a “suposta” integridade grupal do curso.

Este momento originário, com a força da sua fantasia, conseguiu produzir debates travados ao nível acadêmico, com intensa participação dos alunos,  mas que ainda não explicitava a violência e os conflitos de rivalidade fraterna implícitos e que asseguravam o pacto narcísico, ilusório.

Este  período começa a fenecer e culmina com uma greve dos estudantes do curso de psicologia (e de outros cursos), em que várias reivindicações foram feitas, as quais mudaram os rumos da política institucional com conseqüências bastante sérias para a estrutura e para a identidade do curso.

Poderíamos pensar que numa outra ótica institucional, a greve poderia ter sido entendida como um movimento e processo de busca e de constituição de um espaço de ensino democrático, crítico e reflexivo, como parecia ser no discurso institucional explícito. Mas, numa universidade empresa, a greve vai ser entendida como uma ameaça e uma anormalidade ao bom desenvolvimento.

Não havendo espaço possível, o movimento grupal é interrompido pelo movimento maior da instituição incapaz de compreender o que se gestava no interior do curso de psicologia, identificando como perigoso para sua sobrevivência aquilo que ocorria no curso (discussões, reivindicações, debates e etc.). Essa leitura vai remeter o curso ao risco de morte, não lhe possibilitando encontrar caminhos inovadores para seus conflitos. Este primeiro episódio da história deste curso vai se repetir ao longo do tempo, marcando um estilo de gestão institucional.

Os  fatos que ficaram registrados na memória dos entrevistados foram uma direção imposta ao curso, alheia à área e às deliberações do corpo docente e a vinda de um assessor externo, amparado pela instituição, para mudar os rumos das coisas. Ambos foram interferências cruciais e significativas,  apontados como processos autoritários, com grande peso na derrocada do curso, embora houvesse condições objetivas que indicavam a possibilidade da consolidação do curso  em algum campo, área ou circunscrição da Psicologia.        

Frente ao rumo que as coisas foram tomando com o fechamento do curso noturno e com uma baixa oferta de aulas, alguns professores vão se afastando sucessivamente, ou por vontade própria ou por serem demitidos. O curso fica acéfalo na medida em que um coordenador  (que nem era psicólogo) é imposto de fora, além de se contratar uma assessora externa para dar conta dos conflitos do departamento de Psicologia.

Apesar da competência da assessora contratada, esta consegue apenas “conter” a crise ao nível objetivo, deixando de lado a negatividade,  e não produz mudança. Poderíamos aqui usar a metáfora de Freud (1921-1980) sobre a tropa em que o general “perde a cabeça” e seu grupo fica acéfalo, perdendo sua força, antes de alcançar sua posição de alteridade.

O curso inicia um processo lento de agonia. É interessante que as falas escatológicas pronunciadas ("o defunto não foi enterrado" por exemplo) pelos envolvidos continham alguma verdade. Os professores do momento original, que nessa ocasião saíram do curso, conseguiram construir suas carreiras acadêmicas com brilhantismo, fazendo hoje parte da elite da psicologia no Brasil. Na medida em que essa instituição ou este lugar não poderia se constituir mais um objeto transitório na vida dessas pessoas, elas procuraram outras possibilidades de sonhar e quem ficou, ficou agarrado numa ilusão!

A partir dos episódios citados delineia-se o segundo período do curso que chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente, quando se consolida o eclipse do curso e uma espécie de “guetização”  das disciplinas mais formadoras de opinião e mais voltadas para a crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho que movimentaram os primeiros anos do curso de psicologia.Houve objetivamente a diminuição da demanda, mas provavelmente essa diminuição se deu muito mais pela perda de visibilidade e indefinição do curso, do que pela abertura  de novas  IESP’s em diferentes locais do interior de São Paulo e da Grande São Paulo, que ofereciam muitas vagas para os cursos de psicologia.

Este período foi relembrado, em depoimentos utilizados na dissertação, como de absoluta decadência alimentada pelo abandono e pelo desinteresse institucional quanto ao destino do curso de psicologia e também pela incapacidade do corpo docente e dos seus coordenadores em imprimir ou configurar novas formas de atuação, seja pelo conformismo, pelo ressentimento ou pela nostalgia do tempo melhor que existia ainda há pouco  e constantemente rememorado pelos remanescentes daquela época.

Os novos professores que chegaram para substituir os colegas eram ex-alunos ou pessoas da própria cidade que deixaram de reciclar-se e de organizar-se para fazer frente à situação, talvez sem perspectivas concretas de uma carreira docente ou, pelo menos, de certa segurança de emprego, que fizessem jus ao esforço de se aprimorarem cursando uma pós-graduação ou uma especialização.

Os alunos alheios a tudo, como marca deixada pela  história  recente do país ou incentivados por alguns professores para o confronto, tornaram-se ou queixosos e submissos ou ativistas políticos, estabelecendo uma política  de confronto direto com a instituição.

O terceiro período iniciado a partir do final dos anos oitenta  mostrou-se, inicialmente,   como um período apático e de absoluta falta de transparência nas ações relativas ao curso de psicologia.

Em meados da década de noventa, vislumbram-se novos horizontes, quer quanto à possibilidade de transparência das ações empreendidas pela administração, quer quanto ao fortalecimento do corpo docente favorecido pela qualificação e pela elaboração de alguns conflitos, quer quanto ao corpo discente que, paulatinamente, começou a questionar e a renascer das cinzas.

Novo pólo identificatório ressignifica o mito originário, com uma injeção de investimentos institucionais no curso que acenam um discurso empresarial mais progressista, movimentando as pessoas através da exigência de qualificação premida pelo mercado e pelas pressões das Novas Diretrizes Curriculares e do Exame Nacional de Curso.

Entra em cena uma nova coordenação que, apesar de ser de fora do curso e imposta, não impediu o “pacto coletivo”. A coordenação anterior havia sido “demitida” do cargo por um luto simbólico do corpo discente em luto verdadeiro pela demissão de uma professora muita querida, e envolvida com a formação da consciência crítica e de sujeitos emancipados. Esse episódio é paradigmático por duas razões.

Primeiro porque faz compreender a escolha institucional empresarial que se ratifica na demissão de uma professora representante do pensamento crítico de esquerda. Este fato se torna um exemplo da diferença que não mais será suportada, marcando o limite daquilo que a instituição, a partir de então, pode suportar, produzindo novamente o silenciamento da crítica mobilizadora dos conflitos (negatividade).

Segundo, porque a partir da reparação e elaboração do luto pela professora demitida foi possível resgatar um contrato fraterno que produziu concretamente algumas mudanças:
(1)  nos alunos: uma Semana de Psicologia intensa e reflexiva e
(2)  nos professores: um trabalho intenso de elaboração de um novo currículo, afetivamente nomeado como “nosso” currículo.

“Nosso” revela algo produzido internamente, em conjunto, não externamente, como o currículo da assessora contratada para solucionar os conflitos de 1978 e que vigia até o momento, com pequenas alterações.

Para alguns dos professores o “nosso” currículo imaginariamente resgatava o mito originário da possibilidade das diferenças e diversidade em todos os níveis e poderia alavancar o grupo para o resgate da sua história e da sua singularidade. Ledo engano!  Não quiseram saber aquilo que já sabiam: a diferença estava excluída novamente!

Isto foi possível porque as expressões da negatividade foram depositadas na coordenação daquele momento. O grupo neutralizou as diferenças existentes entre seus membros, que nunca foram realmente elaboradas. Mas as diferenças existem e retornam no real quebrando a ilusão grupal (“quanto mais a gente reza mais aparecem fantasmas!”).

Convém falar um pouco sobre as diferenças grupais ou subgrupos nomeados de  “os apaixonados”, “os medrosos”  e os “subterrâneos”.

“Os apaixonados”se identificam pela paixão: paixão por ensinar, por transmitir, por permitir o novo e a diferença. Sua ética é a do desejo e da “solidariedade” (sentido habermasiano, não cristão). Aqui há o medo, mas esse medo é real, pois a realidade o merece, como nos ensinou Adorno em Educação após Auschwitz (Cohn, 1986); ele não é destrutivo quanto o é o medo que vai caracterizar o sub-grupo “os medrosos”, um medo reprimido que, ao voltar, pode ter consequências drásticas, como a submissão inconfessa e alienante. 

No subgrupo “os medrosos”, alguns membros conseguem fazer “alianças” momentâneas com os do subgrupo “apaixonados por ensinar”, mas num momento de insegurança ou ameaça de perigo, real ou imaginário, tornam-se alcaguetes, compactuando com o poder instituído.

O subgrupo “os subterrâneos” funciona numa ética cínica e perversa em que alianças são feitas com a autoridade e as alianças com os outros subgrupos só são feitas instrumentalmente, na medida em que garantem ganhos específicos para si próprios. O que gerencia este grupo, é unicamente a permanência na instituição, seja por que preço for; o seu investimento não é no curso e se mantem em posições individualistas e instrumentais, utilizando como estratégias ora do pacto grupal, ora do poder instituído. Em termos da Escala F de Adorno (Adorno, 1965), os membros do grupo  “os subterrâneos” podem ser entendidos como “manipuladores”  que aderem imediatamente ao instituído e deslocam seus impulsos agressivos para um alvo externo. No caso específico, aos professores do subgrupo “os apaixonados” mais ameaçadores e até à coordenação que não lhe interessa e aos alunos que conseguem vislumbrar esse poder oculto.

Vale ressaltar que "os subterrâneos" talvez sejam os mais adequados para permanecerem numa organização regida pela lógica do mercado, enquanto que os primeiros, nessa ótica desenvolvimentista, são identificados como ameaçadores da ordem instituída, ficando aprisionados e silenciados, apesar das suas qualificações, pelo risco real de demissão.

Apesar das diferenças internas, os professores, no momento da construção do “nosso” currículo, têm um movimento grupal. Mas, outro grande desorganizador se imiscui e novamente vê-se a repetição: o processo grupal, que iniciava e necessitava de um percurso para transpor sua gestação, é abortado.

Como isso ocorreu no nosso entender? Vejamos.

O “nosso” currículo começa sua vigência em 1999 e deveria estar sendo avaliado para que pudesse ser redimensionado no que fosse necessário. Novos operadores sócio-culturais e macro institucionais vão atravessar o grupo de professores impedindo que  essa avaliação fosse feita: mudanças na administração superior excluindo a área progressista levaram à mudanças nas coordenações de quase todos os cursos.  No curso de psicologia, em 2000, se repete o mesmo enrijecimento do final do primeiro período, com a intensificação de processos autoritários representados nos atos da nova coordenação que, como primeiro ato, “impõe” outro currículo (aqui chamado de novíssimo currículo) para começar  sua vigência em 2001. O que significava esse novíssimo currículo de 2001?

Diga-se de passagem,  o currículo estava absolutamente de acordo com as diretrizes curriculares do MEC propostas para a psicologia, ainda não aprovadas, sobre as quais havia o debate do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira da qual o CFP é parte integrante. (Jornal do CRPSP de dezembro de 2002, p.07). Entendemos que trazia em seu bojo o ranço da política neoliberal, a denegação da diferença e da pluralidade das posições individuais e apresentava um cientificismo e autoritarismo que  atravessavam todos os níveis, atingindo, inclusive a sala de aula, que sempre foi uma “brecha” de possibilidade de ampliação da consciência, mesmo em épocas em que a barbárie estava mais visível como no nosso período ditatorial. Neste momento todos ficam paralisados também na sala de aula e o medo, embora não tão real quanto era na ditadura, afeta a todos sem que possam identificar claramente sua origem.
Nesse novíssimo currículo, o que se propunha era, na realidade,  um esvaziamento da sala de aula, pois o mais importante é que os alunos estejam fazendo tarefas e coisas que não impliquem na relação professor-aluno, as quais não têm a “força” criadora da sala de aula, espaço entendido como a “brecha” institucional facilitadora da articulação dos conteúdos inomináveis, dos restos, um dos instrumentos possibilitadores de reflexão crítica. Compactuava com e representava eficientemente  o discurso hegemônico que implica na renúncia do ato de educar, gerando violência, já que acaba com o simbólico, fazendo a negatividade se patologizar e retornar no real.

As turmas existentes no curso de psicologia passam por adaptações curriculares causando até 2002 um profundo mal-estar em todos, sem que se consiga identificar exatamente onde está situado tal mal-estar. Além disso, a turma que entrou em 1999 é “cooptada” a concordar com o novo tempo do Curso de Psicologia: quatro anos! Institucionalmente transformam-se os vários cursos em semestrais e não mais anuais. Os professores do curso de psicologia, sentindo-se desrespeitados em sua competência, deixaram de participar das reuniões para “novas discussões” curriculares, embora tivessem sido convidados a participar. Na realidade, não foram discussões, mas simplesmente “comunicações” verticalizadas da nova coordenadora,  que é figura respeitada na psicologia no Brasil, mas que tem como traço de sua personalidade, no nosso entender, desqualificar aquilo que é produzido no Brasil e/ou pelos nossos alunos e professores numa ótica emancipatória, ficando atrelada a uma visão de progresso marcada pela produção científica do primeiro mundo (EUA e Canadá, principalmente). Sua função, entretanto, parece ser devidamente autorizada pela instituição.

Outro episódio significativo é que a turma que estava no quinto ano em 2000 (currículo antigo) consegue no Exame Nacional de Cursos (Provão) a classificação B colocando a instituição em terceiro lugar no ranking universitário! Para conseguir manter a nota do Provão, impõe-se para as turmas de quarto e quinto ano, a partir de 2001, os famosos “mini-cursos” tentando corrigir as supostas falhas das disciplinas e dos professores no seu ofício de ensinar. O semestre letivo se transforma num “intensivão” preparatório.

Alguns depoimentos de alunos revelam o seu mal-estar:  “[...] o provão foi algo que entristeceu não só a mim, como a todos da sala que se sentiram frustrados já que se tivéssemos aula teríamos nos saído melhor, pois as questões englobavam o que estava sendo ensinado[...]” “[...] terrível! o primeiro semestre foi totalmente dedicado a esta porcaria de testes. De repente começou um menosprezo gigante sobre o que nós havíamos aprendido durante quatro anos [...] a pressão deixou a todos nervosos [...] hoje relendo as questões me lembro de que tudo foi falado no decorrer do curso e que, portanto, as pressões fizeram-nos perder um ótimo final de curso[...]” “[...] horrível porque os mini-cursos destituíram meu saber, foi como se tudo o que aprendi não valesse para fazer essa prova. Fiquei nervoso e fui mal [...]”

Apesar desses mini-cursos, as turmas de quarto e quinto de 2001 e 2002, não mantêm o B da primeira turma que fez o provão, tendo obtido dois C’s consecutivos. Obviamente há responsabilidade dos professores nisso, porém, premidos pela necessidade do emprego ou se transformaram em “meros executores” da ordem implicitamente dada ou só puderam fazer resistência no seu silenciamento, o que também implicava num medo real.

O primeiro movimento de apatia que se instaurou no início de 2001 resultava da inviabilidade do novíssimo currículo e o espaço que teria nele uma visão emancipatória. Entendemos que se instalou uma incongruência entre os diferentes subgrupos, especialmente o subgrupos “os subterrâneos”  que gerou alianças com a coordenação, rompendo explicitamente com o “pacto do coletivo”, trazendo à tona uma desagregação absoluta e a instauração de relações paranoicas entre todos os professores. A desagregação vivida e sentida vai sendo transmitida na sala de aula, cristalizada na dificuldade de “adaptação” ao novo currículo, às novas disciplinas e à nova forma de ensinar com modernas tecnologias “fast food”. Um cunho disciplinador, que vigiava e controlava a tudo e a todos, não deixava brecha para a crítica, que a partir daí é (re)lida como oposição institucional ou como boicote do projeto institucional. Generalizadamente se vivencia um “mal-estar” que se desdobra na formação dos alunos como um “não-aprender” e como uma “correria” na produção de tarefas e atividades.

Na realidade, a apatia, o silenciamento e a desagregação inicial foram necessários  diante  da ameaça de morte e de exclusão, mas foram sendo superados, num segundo momento, onde se começou resgatar a pequeníssima brecha da sala de aula, sustentada através do ato educativo. Foi possível aos professores do subgrupo “os apaixonados” perceber que a brecha estava neles mesmos, na paixão de ensinar e no seu sonho. Neste espaço e nas diferentes disciplinas que restaram  foi-se fazendo a crítica ao cientificismo e ao autoritarismo, pagando-se os riscos desta posição.

O deslocamento do  mal-estar fica cristalizado no currículo novíssimo e também no boato que circula: os subgrupos “os apaixonados”  e “os medrosos” são “inimigos”  do subgrupo “os subterrâneos”  e da coordenação. Dos diferentes estratos institucionais pode-se ouvir nas entrelinhas do discurso: quem estiver conosco fica, caso contrário sai (esta fala já havia sido explicitamente dita no passado!).

Entretanto, aquilo que é destinado a não ser falado  e que se presentifica em todas as situações cotidianas como aquele mal-estar inominado, vai gerar duas explosões de vida do corpo discente.

Na primeira explosão os alunos no final do primeiro semestre de 2001, escrevem três cartas que nomeiam o mal-estar e das quais retiramos alguns trechos expressivos:
(...) A fim de espremer em menor tempo um grande volume de informações, o atual currículo (o novíssimo) impõe, desta forma, aos professores e alunos o cumprimento de prazos e programas de aula num ritmo estressante e alienante.  Envolvidos com tantas exigências, os alunos não têm tempo para pensar e refletir criticamente sobre a práxis, facilitando, sem se dar conta, a tomada de decisões por instâncias alheias às suas reivindicações e direitos, devido ao esgotamento físico e mental a que estão sendo submetidos como ‘cobaias’, cujos comportamentos indicarão, ao final da ‘experiência’ executada pela coordenação do curso, se a mudança curricular valeu a pena de fato.  Não entraremos neste jogo! Entendemos que a educação é uma ferramenta para a prática da liberdade, devendo gerar indivíduos críticos e preparados para socorrer uma sociedade em crise. Por isso, queremos ser ouvidos! Queremos um programa de aulas condizentes com o tempo de que dispomos diariamente para estudar. E exigimos novas mudanças curriculares para o ano que vem, desta vez sim, considerando os anseios dos alunos da Psicologia. (09/05/01). [...] não queremos uma formação tecnicista! Se a técnica é importante, é inegável que o embasamento teórico também o é, integrando o saber acadêmico à prática, na produção do conhecimento” (17/09/01).
[...] Não será o aluno, cliente desta instituição, capaz de avaliar o atual currículo, verificando sua eficácia dentro da realidade prática das salas de aula e fornecendo indicadores sobre a necessidade de possíveis mudanças? Afinal, o aluno tem voz nesta universidade? (11/06/01).

A coordenação responde às reivindicações com argumentos convincentes, repetindo o mesmo padrão institucional relatado anteriormente no início da segunda década do curso, após a greve dos alunos: abafamento das reivindicações tomando as tentativas de participação e de análise crítica dos alunos como um equívoco facilmente esclarecido com uma resposta, de forma absolutamente coerente com o discurso institucional da empresa.

Um dos membros do subgrupo “os subterrâneos”  cria a ilusão de que através de uma carta  dirigida ao Diretor do Centro apoiando a coordenação e seu novíssimo currículo poderia salvar sua pele e tomar o lugar da lei. Pede adesão aos professores para assinar a carta e envia flores à coordenação em nome da totalidade dos professores, cuja grande maioria sequer sabia do mimo. Nessa carta, algo chama a atenção e irrita: “[...] fizemos conquistas incríveis neste último ano e meio, depois da vinda da atual coordenadora. Estamos reconquistando o valor e o respeito do início do curso, nos anos 70.[...]”.  É uma leitura surpreendente, pois o que se repete é o abafamento das diferenças e das contradições, porque em mais nada lembra o início do curso, inclusive pelo pequeno número de alunos (cerca de 130) se comparado com os 1200 alunos dos anos iniciais!

Como abafado, o mal estar permanece e começa emergir no descontentamento, no sarcasmo e na apatia dos alunos e dos professores do subgrupo “os apaixonados” até culminar  numa segunda explosão discente no final do segundo semestre de 2002, agora explicitamente contra a pessoa da coordenadora, pois se dão conta de que o mal-estar de todos é de sua (dela) responsabilidade na condução do curso e na imposição do novíssimo currículo.

Realizam-se algumas assembleias de alunos de onde se tiram algumas reivindicações e ações: querem fazer panelaço pelos corredores dos campi com faixas e camisetas escritas: “Fora!”; “Queremos que nos ouçam, por favor!”; “Queremos ter orgulho de pertencer ao Curso de Psicologia desta Universidade!” e assim por diante.

Ingenuamente, alguns professores, justamente “os apaixonados”, acalmam os ânimos dos alunos mais ativistas esclarecendo-lhes que a questão não pode se tornar pessoal, mas sim que se trata de uma concepção de currículo que está em jogo e precisa ser questionada.

Hoje, afastados dos fatos tão impactantes e podendo analisar objetivamente os mesmos, pode-se entender  que essa atitude  foi um balde de água fria no movimento, que se paralisa, perde na intensidade, dilui-se em nada, ou melhor, culmina com a demissão de professores respeitados pelos alunos. Assim, as (in) conclusões são:

É pura ingenuidade e pura ilusão da paixão tratar através do diálogo, relações desiguais de poder;

O caminho trilhado pelo dispositivo institucional e suas escolhas, levam à desvitalização do espaço de produção criativa no ensino e na formação;

Alunos e professores não conseguiram sustentar-se num movimento que produzisse mudanças qualitativas: uma dialética sem síntese;

As marcas das explosões de vida foram subjetivas, narcísicas e alienadas. Quando defrontados com as respostas institucionais, os alunos não sustentaram suas análises críticas e o movimento se esvaziou; os alunos ficaram à deriva, buscaram a paixão e  a força no subgrupo “os apaixonados”, mas não se deslocaram de sua alienação básica, sempre buscando um senhor que desse corpo e morada às suas subjetividades fragmentadas;

Todos, alunos e professores se aproximaram do subgrupo “os medrosos” e ficaram “rebocados num merengue” como diz o famoso tango “Cambalaches” de Enrique Santos Discépolo.

A pergunta que ficou no ar: “era o fim do começo ou o começo do fim?”




[1] Trabalho originalmente realizado por Borges, Fátima Gonzalez Mosfp; Henriques, Wilma Magaldi e Olmos, Jozélia Regina Díaz para o III Congresso Norte-Nordeste de Psicologia – “Construindo a Psicologia Brasileira: Desafios da Ciência e da Prática Psicológica”, realizado na Fundação Espaço Cultural, em João Pessoa/PB, de 27 a 31 de maio de 2003 na atividade Experiência em Debate, sob o título IMPACTOS NOS PROFESSORES E ALUNOS DE UM CURSO DE PSICOLOGIA ATRAVESSADOS PELAS REFORÇAS CURRICULARES.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor et alii. La Personalidad AutoritáriaBuenos Aires, Proyección, 1965.
COHN, Gabriel. Theodor W. Adorno. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986.
FREUD, S. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund FREUD; v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
KAËS, R. O grupo e o sujeito do grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

UMA LINDA POESIA DE BORGES!


INSTANTES
(Jorge Luis Borges)
 

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"



O QUE OS PSICÓLOGOS PODEM OFERECER AOS VELHOS?


O TRABALHO PREVENTIVO


Uma velhice tranqüila é o somatório de tudo quanto beneficie o organismo possibilite que o velho tenha a qualidade de vida, a aceitação e a inserção na família e na sociedade. 
Segundo Guite Zimerman (2000), a estimulação é o melhor meio para diminuir os  “efeitos negativos do envelhecimento e levar as pessoas a viverem em melhores condições”.
Para a autora, a estimulação não se refere unicamente e apenas aos  exercícios físicos, mas também à alimentação saudável, a um espaço para lazer, ao bom relacionamento familiar, enfim,

(...) estimular é criar uma postura de busca constante, de realizar atividades, de sentir-se alguém (...) para ser parte integrante e ativa de seu grupo.  É incentivar a busca de satisfação nas realizações do dia-a-dia, a fim de ampliar o mundo interno e externo, tornando-se satisfeito, ajustado, valorizado e integrado, para que não seja um peso para si, para sua família e para a sociedade.” (p. 134).

Portanto, é preciso investir numa melhor qualidade de vida, pois, ao contrário do que se pensa,  os idosos podem e devem manter uma vida ativa.
Melhor qualidade de vida deve incluir: boa alimentação, exercícios físicos e recreativos, espaço próprio que permita independência na arrumação e disposição dos móveis, espaço para os "guardados" , espaço de acolhimento e escuta pelos membros familiares e, principalmente, a aceitação do envelhecimento e respeito às limitações decorrentes dele. 
Para Bosi (1994), é fundamental ao velho rememorar o passado, pois que o  envelhecimento abre um possível período de florescimento da pessoa social, o acesso a um "saber" feito de experiência e acompanhado de lúcida indulgência.
O velho, que  já viveu quadros de referência familiar e cultural, tem a função social de rememorar o passado para que este entre de modo constitutivo no presente, revivendo o que se perdeu, as tradições, as histórias que participou, além de presentificar o que está ausente, reavivando e rejuvenescendo aquele que rememora e seu ouvinte. 
A memória alarga o presente e é guardiã da tradição, unindo o começo ao fim. Ao não permitir ao velho mostrar a  competência específica da memória, ele perde a sua função, se retrai de seu lugar e função social e isto acaba por empobrecer a todos. 

A PSICOTERAPIA

A imagem estereotipada da velhice perpassa a evolução das técnicas psicoterápicas desde o seu surgimento. A visão de Freud [1912] (citado por Zimerman, 2000), p.207) acerca da psicoterapia no velho reflete-se no seguinte parágrafo:

A idade dos pacientes tem assim essa grande importância no determinar sua adequação ao tratamento psicanalítico, que, por um lado, perto ou acima dos 50 anos a elasticidade dos processos mentais dos quais depende o tratamento via de regra se acha ausente (...).

Quinze anos após Freud ter realizado este comentário sobre a psicoterapia psicanalítica do idoso, Karl Abraham (citado por Cordiolli, 1993, p. 421) publicou um artigo contrário a Freud, sobre a aplicabilidade do tratamento analítico em idosos. Comentava que a idade da neurose, em termos de prognóstico, é mais importante do que a idade do paciente.
Pollock (citado por Cordiolli, 1993), acredita que a idade avançada, por si só, não exclui um tratamento psicanalítico. Afirma que a meta de um tratamento é fazer com que mais pessoas possam ter um presente e um futuro mais criativos e vivam uma vida satisfatória. Isto pode ocorrer em indivíduos que estejam na maturidade, na juventude ou na velhice.
Segundo Gallo (1990), no campo do atendimento psicológico durante muito tempo prevaleceu a suposição de que nada havia a se fazer pelo velho, já que durante a vida da pessoa houve um acúmulo de problemas mal resolvidos que, diante de uma expectativa de sobrevivência, não se recomendava uma psicoterapia longo e de profundidade. 
Até hoje vemos que há preferência entre psicólogos por tratamentos mais breves e centrados no problema, talvez temendo a eventual morte do paciente interrompendo o trabalho antes de seu final, resultando isso num certo “desperdício”.  Como alternativa há então os atendimentos que se enquadram como “psicoterapia suportiva” em oposição às terapias de “esclarecimento”.  Aquelas podem ser oferecidas ao longo de um tempo indeterminado, sem a exigência de uma periodicidade rígida e sem muito planejamento, possibilitando um apoio afetivo e oportunidade de interação e reflexão que podem levar ao idoso, psiquicamente saudável, a explorar seus potenciais e assim leva-lo a melhores condições de redimensionar suas possibilidades existenciais, projetos, expectativas e demandas e a aceitar suas limitações.
Uma advertência feita por Zimernam nos parece bastante importante. Trata-se da compreensão  do termo psicoterapia, que tem um “largo leque de significações que se estendem desde um simples ‘apoio’ até um sofisticado tratamento psicanalítico’” (p.208).  A sugestão é distinguir ação psicoterápica de psicoterapia propriamente dita. A primeira pode ser obtida por vários meios, por profissionais e pessoas sem muita especialização na área da  Psicologia incluindo aí o clínico, o amigo, o atendente, algum membro familiar, etc), enquanto que a segunda requer maior formalização, profissionais treinados e manejo teórico-técnico.
Entretanto, qualquer modalidade de psicoterapia, entre os vários tipos possíveis, requer alguns requisitos como o “gostar de velhos de forma autêntica e sincera”, “servir de continente da carga de sentimentos depositados pelo velho no terapeuta”, “disponibilidade”, “colocação de limites”, entre outras condições.


Referências: as mesmas do trabalho teórico sobre o Envelhecimento






segunda-feira, 23 de abril de 2012

TEMPUS FUGIT (O TEMPO FOGE), PORTANTO, CARPE DIEM (COLHA O DIA)!


Já disse em outro texto que a  memória é uma qualidade dos velhos. Esta é uma questão complicada e digo por que: velho tem qualidade?  Qual será ela?
Digamos que tem, só para nos deixar alegres!  Uma coisa é certa e esta nos alegra.  Temos, nós os da “melhor idade”, da “terceira idade”, da “idade da maturidade”, “da velhice” ou simplesmente, nós os velhos, podemos nos alegrar porque quase todos nós estamos, há algumas décadas, aumentando, ou seja, não estamos morrendo tão jovens como antes.
Lembro-me que quando era criança considerava que minha mãe era velha para mim, apesar de ser apenas 26 anos mais velha que eu! Minhas nonas (as vovós em italiano) tanto a paterna quanto a materna, eram velhas “corocas” como dizíamos  nós, as crianças.  Não sei bem precisar o sentimento que tinha, mas, era engraçado: tinham as crianças e tinham os velhos!


Descrição: C:\Users\Regina\Pictures\Niver Regina 71\Biver 71\DSC00740.JPGRevendo algumas fotografias minhas, vejo que eu também parecia mais velha do que realmente era.  Não sei se eram os vestidos e a forma como me arrumava: salto alto, luvas, bolsa, meias de nylon, e etc. O fato é que parecia uma senhora.  E só tinha 18 anos, no máximo!!!  
Estas fotos, por exemplo, revelam o que eu disse: numa eu tinha apenas 17 anos incompletos e estava pronta para ir à Missa das 11 h na Igreja da Consolação, em São Paulo. Claro que o rosto é jovem, mas o semblante é de uma senhora, jovem é claro, mas uma senhora. Comparem a foto aos 17 com a foto aos 71, tirada no dia de meu aniversário, num pequeno jantarzinho que fiz para minhas amigas.
    
     
Hoje as roupas são jovens, coloridas, estilosas, fashions como se diz. Uma senhora pode se arrumar de maneira a parecer menos idade do que realmente tem. Ou será que é a mídia que nos faz ver-nos assim?  Ou os botox e as plásticas ou mesmo o photoshop?
Realmente fica difícil dizer a idade das pessoas hoje em dia. Há algumas, infelizmente, devido às vicissitudes de suas vidas, à exclusão social, ao trabalho árduo e duro, às pencas de filhos e às poucas oportunidades que tiveram, que parecem muito velhas, quando na realidade, cronologicamente falando, são jovens senhoras de 49, 50 anos, que parecem ter 70 ou mais.
Dizem que eu sou uma dessas últimas. Talvez aos olhos dos outros realmente pareça mais jovem do que sou. Estou com 72 anos vividos, mas dizem que aparento no máximo 65. Nunca chegaram, nas suas avaliações, aos 66, e poucas chegaram aos 69.  Mas eu, euzinha mesmo, sinto as diferenças, principalmente as físicas, sobre as quais vou falar qualquer dia destes.
Eu digo e assino: nunca fiz uma plástica, nem coloquei botox, ou fiz photoshop em minhas fotos. Tudo o que meu corpo e meu rosto trazem, são as marcas dos anos vividos e ponto final. Tenho uma fraqueza: pinto os cabelos. Estes são os únicos que não são mais naturais. Ainda não consigo deixa-los brancos. Estou ensaiando!
A verdade é que hoje o limiar da velhice deslocou-se em algumas décadas.  Ter setenta anos hoje é estar velho apenas no sentido burocrático, como ter direito a uma aposentadoria.  Antes, setenta anos era o atestado de velhice, quando se chegava aos setenta, porque muitos morriam muito antes.
No censo brasileiro, os velhos aumentaram muito [1] e, dizem,  melhorou a qualidade de vida deles.  Muitas doenças estão sob controle; os velhos fazem ginásticas, dançam, se arrumam e se vestem como se tivessem 30 anos ou até menos.
Mas, é claro, do ponto de vista psicológico é outra coisa. Há pessoas que são velhas aos 20 anos e outras, como eu, por exemplo, que se consideram bem mais jovens do que são!  Eu adoro passear, dançar, ler, ouvir música, estar num ambiente alegre e enriquecedor, escrever e etc. Tenho um astral alto. Mesmo que algumas vezes fique triste e um pouco chateada de estar longe de pessoas queridas, como meus netos e neta e filhos, eu tiro de letra e logo me alegro novamente. 
Não gosto nadinha de pessoas velhas que são cheias de receios e que acham que suas vidas já se acabaram, em vários aspectos. Também não gosto de estar com pessoas que adoram falar dos outros sem olharem a si próprias, ou que adoram criticar os outros, mas são incapazes de voltar seus olhos para dentro de si mesmas. Entretanto, adoro "jogar conversa fora", "contar causos", recordar, ver fotos, jogar joguinhos e paciência na internet, ou simplesmente fumar meu cigarrinho,  bem descontraída, de preferência com uma taça de vinho, ou com uma cervejinha bem gelada, em companhia agradável!
A tristeza que às vezes me invade é muito triste mesmo! Um misto de saudade, de arrependimento, de ter feito coisas que não deveria ter feito ou deixado de fazer as que deveriam, de não ter como remediar aquilo que foi feito, principalmente quando as pessoas atingidas já não estão aqui comigo.  Não sei identificar qual é o sentimento sentido, mas é muito ruim.  O choro às vezes alivia, outras vezes causa mais tensão!  Depois vem a reflexão. Essa é racional, avaliativa e de certo modo abafa o que foi sentido. Mas é importante poder refletir e encontrar soluções ou elaborar psicologicamente aquele sentimento não identificado quando sentido.
Muitos velhos dizem que não temem a morte. Penso que ao refletir sobre ela como um fato inequívoco da existência — e eu o faço constantemente já que me considero uma "existencialista", não há o que fazer: somos seres finitos e morte-vida é uma única verdade, como tese e antítese. É o ímpeto que deve nos impulsionar para viver a vida o mais intensamente possível, o mais propriamente possível, no dizer do filósofo Martin Heidegger, um dos meus preferidos, apesar de toda controvérsia de sua ligação com o nazismo.
Mas quando falamos da nossa própria morte como fim da nossa vida, isto é outra coisa: é duro saber que, retomando a bela metáfora de Bobbio (O tempo da Memória. De senectute e outros escritos autobiográficos. Editora Campus, Rio de Janeiro,  Prefácio de Celso Lafer, p.XXVIII), percebemos que vamos descendo a escada da vida de degrau em degrau e, por pequeno que este seja, sabemos que não só não há volta como também que o número de degraus que temos pela frente é sempre menor. O bom é que não sabemos quantos degraus têm a nossa vida!!! Ainda bem. Como não creio na hipótese de outra vida após a morte ou de eventuais recompensas noutra vida que não nessa que vivo, tenho dificuldade em aceitar minha própria morte, acho que como todo mortal.  Fico bem triste de pensar que não poderei mais ver meus filhos e netos e neta, não poderei mais apreciar o sol, sentir o cheiro das rosas, acariciar meus gatinhos [2] , bater um “papo” com o meu papagaio, o Paco [3], ler um livro, escrever alguma bobagem.  Enfim... acho que é muito triste.  Sobre isso também quero dedicar uma parte desse meu escrevinhar.
Fora essas esquisitices, que acredito acometam qualquer ser humano não só os velhos, tudo é maravilhoso, com exceção, é claro, dos disparates que os homens ainda cometem contra si mesmos e contra a natureza como um todo. Fico abominada com qualquer tipo de exclusão e violência, embora muitas vezes estejamos enredados nelas sem nos darmos conta!
Voltando à velhice. Há todo um temor, às vezes invisível e indizível, no que diz respeito à forma de tratamento aos velhos.  Como devemos chama-los? Pessoas da terceira idade, da melhor idade, idosos ou simplesmente velhos?  Eu opto por velhos principalmente para resgatar algo que tornou pejorativa a palavra.
Sabe-se que as palavras são prenhes de significados emocionais e conceituais,  ou pré-conceituais melhor dizendo, e que têm muito a ver com uma certa exclusão  pelos mais jovens e até pelos próprios velhos, já que temem a velhice pela sua marca de incapacidade e isolamento. Alguns velhos se auto justificam: "- estou com 80 anos, mas com um espírito de 20!". Por que acham que é melhor ter espírito de 20, "do que ter um espírito maduro ou velho, capaz de ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição", como bem escreveu Lya Luft  em seu lindo livro Perdas e Ganhos (Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 128).  As pessoas mais jovens e os próprios velhos, a maior parte das vezes, se decretam acabadas, sem a menor possibilidade de sonhar, de brincar, de amar, de serem felizes, simplesmente porque seu corpo mudou, suas rugas aumentaram, sua pele não é mais translúcida, seus cabelos embranqueceram!
Mas, sabiamente, velho é aquele que pode dizer o que pensa, claro, sem ferir ou magoar as pessoas - coisa própria dos chamados jovens -,  sem medo de errar, embora muitos velhos ainda temam posicionar-se em várias questões.
Para mim, velho é aquele que tem o que contar. E eu tenho muito!

[1] Segundo o PLAS  2009-2012 (Plano de Assistência Social) no município de São Paulo, “a população com idade igual ou superior a 60 anos que hoje é de 1.267.929 passará a ser em 2020 de 1.929.200 (...) segundo o índice de envelhecimento produzido pela Fundação Seade para 2010 (...) as maiores percentagens de pessoas com mais de 60 anos estão nos distritos considerados mais ricos da cidade, enquanto nos mais pobre a proporção anda é muito baixa
[2] Agora só minha gatinha Missiko  Branca.  O Missiko Preto desapareceu em 2009. Nunca mais soube dele, provavelmente o roubaram porque ele era muito manso e carinhoso. Espero que esteja numa casa em que receba os cuidados que eu sempre tive com ele.

[3] Meu querido Paco se foi em

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A VELHA E ETERNA MANGUEIRA: RECORDAR É REPETIR E ELABORAR!





  
Naquela tarde do ano de 1952, o padre jesuíta convidado para pregador do retiro espiritual, estava no púlpito refletindo sobre a eternidade. A frase dita por ele de forma eloquente e que assim gravei foi:
— mais um ano a cair no oceano da eternidade. Estará essa gota de tempo pura de todo pecado meu? Que coisa fiz por Deus e  por minh’ alma durante este tempo?
Refletir sobre essas abstrações era deveras complicado e difícil para uma menina, num colégio de freiras, longe de seus pais e irmão, de sua casa, de seus namoradinhos, de suas amiguinhas!
Subentendia que o jesuíta estava falando de pecado e de proibições, pois era corriqueiro falar sobre tais coisas naquela época de tanta ingenuidade, mas que as irmãs insistiam em pecaminar. Conhecia as palavras e sabia o que era gota, o que era oceano, o que era tempo e que eternidade era uma palavra que aparecia muito no missal Goffiné[1], mas as metáforas não entendia!
Até hoje fico realmente intimidada em lembrar-me dessa situação e, principalmente, pela explicação que o jesuíta deu depois. Vou recordar mais um pouco.
No pátio interno do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, naquela época, existia uma imponente mangueira (até hoje está lá!), plantada pela Irmã Angelina Achard em 1860, uma das primeiras irmãs vindas de Chambèry, na França, cerca de 56 anos antes, talvez para imortalizá-las, na eternidade, apesar da duração muito curta da existência arbórea.
Essa mangueira, majestosa, era uma árvore mágica para nós: o diâmetro de seu tronco principal era alcançado por não menos que doze garotas de mãos dadas e mais ou menos a uns quatro metros do solo, saiam onze troncos secundários e, destes, outros tantos...
Sempre brincávamos de abraçá-la, cercando-a. Seus galhos adentravam pelas salas de aula ou pelos janelões do Dormitório dos Santos Anjos, no lado oposto. Não raras vezes, as aulas de latim ou de francês eram acompanhadas pelos gorgeios dos passarinhos que se aninhavam em seus galhos. As meninas choravam muito quando era necessário podar alguns de seus galhos que não tinham vergonha de se adentrar os janelões e de se infiltrar em nossa intimidade, como se estivessem atentos, também, a nos vigiar.  Nós a tratávamos como gente!
Nunca conseguimos, apesar de sempre tentarmos, subir em seus galhos porque os olhos vigilantes das irmãs sempre nos coibiam e, com certeza, entendíamos o que elas queriam dizer através deles:
não é um ato de polidez e de bom tom meninas educadas subirem em árvores!.  
Pobres irmãs! Não poderiam nem imaginar o que esta proibição significaria mais tarde em nossas vidas de mulheres.
As folhas da mangueira eram incontáveis – a foto pode dar uma idéia -  e cobriam com sombra quase que o pátio inteiro que tinha cerca de 30 m de largura por 70 ou 80 m de comprimento; alcançava a altura da construção do colégio: o andar térreo, o pátio que ficava a uns 20 lances de escada abaixo do térreo, o primeiro andar e o sótão.
Eu a respeitava como soberana absoluta. Mais que à Notre Mère (como chamávamos a madre superiora) e quantas vezes conversava com a velha mangueira como se fora minha mãe, que estava tão longe, certa de que me propiciava a mais fina educação formal. O meu vínculo com a árvore era de respeito e admiração e, porque não dizer, de certo medo, como se de repente ela tivesse o poder de me controlar, pois seus galhos e folhas estavam por todos os lados e por todos os cantinhos dos corredores, por onde as meninas davam asas à imaginação juvenil. Era onipotente, onipresente e onisciente... Era, enfim, os olhos de Deus!
Pois bem, o senhor padre jesuíta, ao refletir sobre a eternidade, numa tentativa de concretizar um conceito tão abstrato e difícil e tão longe da minha experiência concreta,  utilizou a comparação:
— meninas, vocês conhecem bem a majestosa mangueira lá do pátio e sabem que é impossível contarmos todas as suas folhas. Tentem imaginar que a cada mil anos vocês arrancassem uma folhinha dela. Imaginem que essa operação jamais acabaria, porque, ao retirar uma folha, nasceriam outras mil. Pois bem, essa é uma idéia aproximada da eternidade!
Para mim era uma coisa incrível. Mesmo mil era abstrato, pois contava apenas os 270 dias do ano longe de casa, os 60 minutos na Igreja, ou os 30 minutos, apenas, de recreio... Mil?! só nos cálculos das aulas de matemática.
Na minha vida cotidiana o tempo era sempre referido ao tempo mensurável, cronológico, representado por objetos comuns ao meu relacionamento com o relógio, com os sinos, ou com o calendário. Mais precisamente, o sino da capela indicava o horário de levantar, ir à missa ou à reza; o sininho da madre diretora, pendurado ao lado de sua sala numa das pilastras que formavam a varanda que circundava o pátio, dava a dimensão do tempo das aulas, do almoço, dos recreios, das aulas de piano ou de pintura, do jantar e do dormir.
Mais longamente, tinha a dimensão da semana pela fita vermelha indicadora de bom comportamento e que tinha o direito de exibir, no locutório, aos domingos, quando recebia as visitas, geralmente dos familiares.
A dimensão do mês era dada pelas provas e pela menstruação, cujo sinal evidente tinha que esconder muito bem escondidinho nos “quartinhos” que ficavam sob a escada, onde havia cestos forrados por sacos brancos e onde depositava meus “paninhos” - versão antiga dos absorventes higiênicos –  toalhinhas felpudas, retangulares, com casas de botões nas pontas, que aboatoavam os botões fixos na cinta própria para usar “naqueles dias”.  Todos os paninhos tinham bordado o número 129, aliás como em todos os meus pertences, pois era minha identificação. Semelhante ao número dado aos presidiários, doentes mentais, leitos hospitalares, lugares que anulam a pessoa e lhe dão um número.Qualquer semelhança com uma instituição total é mera coincidência!
A dimensão do final do semestre era dada pelos exames e pelos “Deo Gratias” que ecoavam pelo colégio: duas palavras mais pronunciadas e escritas nos versos dos santinhos, ou nos nossos cadernos.
Mas eu, garota de um internato de freiras, até então nunca me havia dado conta dessa dimensão do tempo que, no dizer de Heidegger, não é “encontrado em parte alguma do relógio, nem no mostrador, nem no mecanismo, tampouco nos cronômetros da técnica moderna (...) e quanto mais exatos no efeito da medição, tanto menor a oportunidade que temos de meditar sobre o que é próprio do tempo.”
A configuração do tempo reduzido a uma noção fundamentalmente espacial estabelece o conceito de espaço de tempo, entendido como a distância entre dois pontos, e resulta do cálculo do tempo, linear, mensurável e unidimensional. Mas, independente e antes da efetuação de qualquer cálculo que vise mensurar o tempo, é no alcançar-se recíproco do futuro, passado e presente que repousa o elemento próprio do espaço-de-tempo do tempo autêntico.
Se o repetir é entendido como o trazer de volta, de novo, presentificar, não o “mesmo” como nos rituais obsessivos, mas o repetir diferencial, talvez seja essa a razão pela qual uma experiência passada se possibilita à abertura, à presentificação e, então, não é sem sentido que estou com o episódio do colégio revivido atualmente, de modo tão intenso. Aqui estou eu tentando buscar o elo, o elemento articulador, ocultado em algum lugar do passado.
Aquela mangueira, para mim, era uma obra de arte, perecível enquanto realidade e de um instante fugaz de duração, mas representava a eternidade, não da forma como o jesuíta nos falou naquela época, mas no sentido de que me embriagava dionisiacamente e me enlevava acima da fria apreciação racional, apolínea, isto é, acima do meu entendimento. Atraía-me e eu me deixava envolver e encantar por ela, vivenciando momentos de intensa e imensa paz e integração, nos quais não estava mais consciente de mim mesma, onde existia plenamente, unida a ela, integrada ao mundo, fazendo parte do universo de modo harmonioso.
Ora, só existe um momento onde isso é possível: o encontro primeiro com a mãe, nossa experiência primária de satisfação plena. A mangueira a representava tão vivamente para mim?
Essas associações remetem-me a essa problemática do tempo, principalmente porque este tem sido um tema abordado explicitamente em algumas discussões e por eu estar vivenciando um processo cheio de ambigüidades e de riscos, cuja imprevisibilidade me impede de ter segurança ao agir: a perda de um ente querido e a separação de meu filho.
Essa insegurança permanece mesmo que eu procure me apoiar no passado, agindo em termos do que já conheço ou mesmo revivendo episódios de minha infância e dessa forma um autêntico passado. Mas, embora o presente seja também abertura para o futuro, este é sempre imprevisível, sempre terá suas peculiaridades que vão além daquilo que conheço agora.
A perda e a separação desencadearam em mim a antiga experiência de separação de minha mãe, quando fui internada no colégio?
Mas naquela época eu deixei de ser insegura e angustiada, superando as situações concretas do meu existir, na relação com a velha mangueira. E agora? Somente estou encontrando e enfrentando o nada, o desconhecido, o  que aflige.
Terminarei minhas reflexões com uma citação de Binswanger (1973), que me parece muito sábia e que talvez possa inserir-se aqui adequadamente, bem como ajudar a superar essa vivência de angústia e alcançar o máximo de minhas possibilidades:
... ao amar, o existente transcende o espaço e o tempo -- o próximo e o distante;  o antes, o agora e o depois fundem-se momentaneamente, propiciando, por instantes, vivenciar a integração completa. (...) Na forma dual de existir, o ser humano vivencia a si próprio e ao outro como unidos, integrados, livres de desejos e de todas as particularidades. Ela constitui a verdadeira unidade, o nós originário, primordial, que é anterior ao sexo, à idade, à raça e a todas as particularidades. Nela o homem deixa, por instantes, de ser-no-mundo para ser-além-do-mundo, na eternidade.

Referências
BINSWANGER, LUDWIG. Articulos y conferencias escogidas. Madri. Gedos. 1973
FREUD,  SIGMUND. Recordar, Repetir e Elaborar (1914) In: Obras  Completas. Vol. XII. Rio de Janeiro. Imago: 1969.
GARCIA-ROZA, LUIZ ALFREDO. Acaso e Repetição em Psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 1980.
GRLIC, DANKO. Nietzsche e o Eterno Retorno do Mesmo ou o Retorno da Essência Artística na Arte. In: Colóquio de Cérigy. São Paulo. Brasiliense: 1980.
HEIDEGGER, MARTIN. O Fim da Filosofia ou a Questão do Pensamento. São Paulo. Duas Cidades: 1972.

        
                  



[1] Goffiné – Manual do Christão, traduzido da 14ª ed. Francesa, Rio de Janeiro: Casa Central dos Padres Lazaristas, 1951, 1140p.

domingo, 18 de setembro de 2011

APENAS PARA INICIAR

Hoje resolvi  iniciar este blog. Confesso que sou absolutamente desprovida de qualquer conhecimento dessa tecnologia e vou fazê-lo empiricamente. Por tal motivo já começo pedindo desculpas pelos possíveis deslizes que vou cometer. De qualquer forma alguma coisa vai ficar correta. Afinal de contas por que uma senhora, já considerada idosa segundo as inúmeras classificações disponíveis, não conseguiria publicar seus escritos num blog.
Então vamos lá!     Deixe-me fazer as apresentações iniciais.
Sou aposentada, separada, mas não divorciada, tenho três netos homens e uma menina, filhos e filha de meus filhos Rodrigo e Cecília. Sempre trabalhei na área da educação. Completei o terceiro grau em Psicologia, e conclui o mestrado em Psicologia. Cursei outros cursos universitários, em épocas anteriores, que não completei por inúmeras razões, as quais, com certeza, aparecerão em alguns de meus escritos ou poderão ser deduzidas a partir deles. Também fiz outro mestrado, inconcluso, assim como o doutorado, inconcluso.
 No início de minha vida profissional - e já se vão muitos anos! - trabalhei como secretária em duas empresas internacionais de grande porte e no final de minha vida profissional trabalhei em empresa pública nacional - um dos três poderes da vida republicana. No intermezzo, exerci atividade profissional liberal como psicóloga clínica atuando em consultório particular.
Sou leitora ávida e também gosto de escrevinhar. Entre minhas atividades preferidas, além destas,  estão também o cinema, a dança de salão, a música e o artesanato.
Moro sozinha, mas não sou só. Entendo que podemos estar sós, sem a companhia física de alguém e, mesmo assim, não nos sentirmos solitários.   Então, não sofro de solidão, pois  sou uma pessoa plena  de recordações e vivências, boas e más, alegres e tristes, profundas e supérfluas e são elas que me fizeram procurar nas quinquilharias guardadas, tudo aquilo que  trouxesse  de volta pessoas queridas, as que ainda estão entre os vivos, as que já se foram dessa vida e aquelas que passaram por mim deixando suas marcas e ensinamentos de qualquer espécie. Não importa.  Importa o que brindaram com suas presenças deixando em mim um rastro que permanece indelével, até hoje.
De muitas delas não tenho mais a presença física porque já partiram no trem da vida, mas as tenho na memória.  Outras, embora morando muito longe, foi  possível  localizá-las. Hoje temos ferramentas de rastreamento muito interessantes. De outras ainda tenho o prazer da convivência. Mas, de qualquer forma será através das minhas lembranças que poderei retomar alguns episódios em que muitas delas estiveram presentes.
A memória é uma coisa incrível. É capaz de transformar sapos em príncipes, anjos em demônios, o verdadeiro no falso, o falso no verdadeiro, o triste no alegre e o alegre no triste.  Mas, apesar disso, que seria de nós se não a tivéssemos? Dizem que é uma qualidade dos velhos e, positiva, porque mantém viva a chama da vida, porque ensina os jovens alguma coisa que já se passou ou que já deixou definitivamente a convivência social.  É um documento importantíssimo, mesmo que defeituoso.  Digo defeituoso porque a memória muitas vezes deforma aquilo que vivenciamos.  Mas que outro tipo de registro não deforma aquilo que se diz ou aquilo que aconteceu?  Por acaso, quando alguém escreve uma ata, faz um monumento, assina um tratado ou coisa parecida, também não está deformando o acontecimento, na medida em que está dando uma versão parcial do mesmo? Mesmo a máquina de fotografia. Ela reduz um fato a um ângulo desejado pelo fotógrafo e do qual teremos apenas o aspecto registrado. Acho que esse é um problema insolúvel e sobre ele já escrevi um bocado quando estava na Academia.  Ao longo desse percurso que pretendo fazer pela minha vida, terei oportunidade de colocar minhas considerações sobre essa maravilha que é a memória.  Por enquanto quero deixar registrado que me basearei nela e, é claro, quando tiver alguma outra forma de registro (fotografia, notas, desenhos, músicas, vídeos, depoimentos, publicações e etc.) também a utilizarei para deixar o acontecimento o mais verídico possível, pelo menos naquilo que foi registrado pela máquina e pela memória.
Dizem que o tempo da memória é o tempo de quem tem um compromisso com a verdade e se acha disposto a olhar para o passado, como escreveu Bobbio em seu livro  O Tempo da Memória – De Senectude e outros escritos autobiográficos, publicado pela Editora Campus, Rio de Janeiro,  em 1997.  O título De Senectude é uma referência ao livro clássico de Cícero, que também escreveu sobre a velhice depois dos 60 anos de idade.
Dizem também que a memória segue um caminho inverso ao do tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos ocorreram.  De qualquer forma, é bom ir desencavando tudo o que vem à tona, muitas vezes de forma involuntária. Sobre isso falarei no decorrer dos escritos.
Bem, esta introdução é para alertar a quem quer que venha a dedicar seu precioso tempo a ler essas histórias, que muitas lembranças estão soltas e que, muitas vezes perdi o fio que poderia ligá-las na tessitura de minha vida.  Com certeza alguns furos nesse tecido serão inevitáveis. Quando isso ocorrer, vou à busca de outras memórias, de quem vivenciou o fato comigo ou dele participou de alguma forma.  Acho que assim farei justiça a todos aqueles que estiveram presentes e compartilharam comigo momentos importantes de minha vida.
Li alhures que o um diário é um aborrecimento a quem o faz, mas que quando feito acaba por constituir-se uma grande alegria e dá para entender bem o porquê.  Eu sempre comecei a escrever um diário, mas nunca dei continuidade e não sei por qual razão já que sempre guardei muita coisa: papeizinhos, pétalas de flores (algumas com bilhetinhos), guardanapos, programas de teatro, entradas de cinema, pensamentos, ideias pensadas, projetos idealizados e não realizados, folhas escritas nas mais diversas ocasiões, algumas vezes – a maior parte – sem data ou qualquer referência, enfim, tanta coisa reunida aleatoriamente. Já fiz várias faxinas e joguei muita coisa fora, mesmo assim ainda tenho muita coisa. Mas confesso que não sofro de “TOC”[1].
Entre as coisas que gosto de fazer esqueci-me de dizer que fotografar também gosto, registrando quase todos os acontecimentos, mas sou péssima fotógrafa, apesar disso dá para se ter uma ideia do evento. Muitos deles não foram fotografados porque ainda não tinha máquina fotográfica ou a mesma estava quebrada. Hoje, com as câmeras digitais tudo é mais fácil, mesmo assim minhas fotos são bem ruinzinhas!  Tenho uma inveja do Claudio Edinger, do Sebastião Salgado, e de outros maravilhosos fotógrafos.
Declaro aqui que sempre quis organizar meus papéis.  Muitos deles até consegui colocar numa certa ordem cronológica. Por exemplo, os textos escritos para comunicações orais em congressos, estão quase todos catalogados e guardados em pastas, além de citados no meu Lattes.
Um dos meus projetos era compilar meus textos em forma de livro ou num “blog”, nosso diário virtual. Mas aquilo que não está escrito é mais difícil de organizar. Às vezes uma foto pode evocar muitas lembranças, mas não só as fotos têm esse poder.  A música, o perfume, a visão de uma árvore, de uma paisagem também o tem.  Não foi assim com as madeleines e com a lousa de Proust [2]?
Não creio que minha vida tenha algo de excepcional, nem que ela é diferente das demais.  Nunca fiz ato heroico, nunca fui reverenciada como superior, ao contrário, sempre tive uma vida bastante comum: momentos bons e ruins, alguns importantes para outras pessoas, mas, no mais das vezes, insignificante para a humanidade.  Um repeteco bastante comum das pessoas comuns da terra. Mas, como tenho herdeiros: meus três netos (Gabriel, Guilherme, Pedro) e minha neta (Maria Eduarda), creio que é preciso deixar para eles uma pequena mostra do que veio antes deles, o mais longínquo possível.  Por esse motivo pretendo começar pela genealogia.   Coisa difícil porque é necessário buscar informações que muitas vezes se perderam. Estou tentando fazer minha árvore num aplicativo chamado My Heritage, mas é bem difícil.
 Rapidamente quero dizer que pela linha materna até tenho algumas informações que recebi de um primo distante, o José Carlos Covizzi.  Este primo mandou-me recentemente uma pequena árvore genealógica que traz importantes revelações sobre a família pela linha materna, os Orlando e os Borghi.
  Pelo lado paterno já é mais difícil.  As memórias de minha família paterna, a tia Albertina e a tia Helena, já não estão mais vivas, mesmo assim vou procurar obtê-las para deixar registrado aqui neste pequeno espaço tudo o que sei ou que me contaram sobre a família Segabinazzi e Barnabé.
Digo desde já que todos vieram da Vecchia Itália, como imigrantes.  Aqui se casaram, tiveram seus filhos, alguns conheceram seus netos e bisnetos, mas todos deixaram um exemplo que merece ser dito aqui:  o amor pela famiglia,  pela terra e pelos princípios.  Vou dedicar-lhes uma parte deste texto, senão ele todo!
Este pequeno texto foi escrito num domingo, dia 15 de julho de 2007, às 18h 03min 45seg.





[1] Transtorno Obsessivo Compulsivo:

[2] Marcel Proust