quarta-feira, 18 de setembro de 2013

VELHICE EM TEMPO DE APRENDER [1]


                                                                                                           Pode um homem velho renascer ?
(pergunta de Nicodemus a Jesus)

O envelhecer é um processo pessoal e inevitável para qualquer ser humano na trajetória da vida, no qual ocorrem mudanças nos diferentes âmbitos da existência: biológico, fisiológico, psicológico, espiritual, social, econômico e cultural.
Parece não haver dúvida sobre a existência de mudanças físicas, externas,  inevitáveis e partilhadas que se iniciam na vida adulta conhecidas como envelhecimento: rugas, cabelos brancos, as manchas na pele, o andar mais lento, a diminuição das capacidades auditiva e visual, mudanças estas que nos revelam a fragilidade do corpo.
Com a perda gradual das aptidões físicas, o impacto do envelhecimento e das doenças, o idoso tende a ir alterando seus hábitos de vida e rotinas diárias por atividades e formas de ocupação pouco ativas, podendo acarretar numa redução no desempenho físico, na habilidade motora, na capacidade de concentração, de reação e de coordenação, gerando processos de autodesvalorização, apatia, insegurança, perda da motivação, isolamento social e a solidão.
Ainda, em decorrência da idade e das inúmeras perdas, o idoso passa a sofrer preconceitos, gerando quase sempre a exclusão do meio produtivo e da família que passa a considera-los um estorvo dentro do lar. A solução mais prática vista pelos seus familiares acaba sendo a "internação" numa casa de repouso, quando economicamente viável, ou em asilos, quando a situação financeira é desfavorável.
Para Beauvoir (citado por Vargas, 1992, pg 15) o envelhecimento tem sobretudo uma dimensão existencial e, como todas as situações humanas, modifica a relação do homem com o tempo, com o mundo e com sua própria história, revestindo-se não só de características biopsíquicas, como também sociais e culturais.
Por outro lado, a partir do século XX, o mundo está vivenciando um aumento na população de idosos e isso tem levado os cientistas e aqueles que se dedicam à velhice a se preocuparem muito com os aspectos relacionados a esta parte da trajetória existencial do ser humano.  
O Brasil é um dos paises em que a população de pessoas velhas em aumentado assustadoramente. Segundo o último censo do IBGE (2000), o novo século terá o desafio de cuidar de uma população de mais de 32 milhões de idosos, a maioria com baixo nível sócio-econômico e educacional, e experimentando uma alta prevalência de doenças crônicas e incapacitantes. Pouco mais de 50% dos idosos têm completa independência física e mental para realizar atividades diárias.
Em vários países as informações derivadas da experiência de envelhecimento das populações deram origem a novas formulações que incluíam a consideração da possibilidade de uma boa e saudável velhice, atribuída não só a fatores hereditários e pessoais, mas à qualidade de vida. 
Mas, para tanto, é preciso enfrentar muitos desafios para viver bem no mundo contemporâneo, não somente em termos de assistência, tratamento e reabilitação, mas em termos de políticas e ações preventivas e de promoção da saúde, o que significa não apenas evitar doenças, mas buscar uma melhor qualidade de vida.
Em países como o nosso, cheios dos problemas derivados do subdesenvolvimento e de necessidades cada vez maiores, normalmente o Estado tende a fixar sua atenção e esforço na solução de problemas conjunturais, problemas que afligem a generalidade dos habitantes. O estado empobrecido não prestigia determinados setores da população, como exigiria a terceira idade.
Para Bosi (1994) as relações que estabelecemos com o idoso estão baseadas na tolerância sem sinceridade e por isso,  abdicamo-nos do diálogo, do conflito e da contradição através do banimento e da discriminação dos velhos.
Mas eles estão excluídos contra sua vontade, tornaram-se pouco consumidores, tendem a consumir maiores recursos da saúde, e acabam sobrevivendo a expensas de uma sociedade quase sempre hostil, recebendo as ajudas caridosas que esta se digna oferecer-lhes. Estão excluídos da produção porque ninguém lhes dá emprego, tornam-se pouco consumidores porque não têm dinheiro, não têm dinheiro porque ninguém lhes dá emprego, e consomem recursos da saúde porque adoecem, e adoecem mais porque não têm recursos para a saúde. Forma-se assim um deplorável círculo vicioso. Enfim, estão excluídos do laço social.
Infelizmente, um dos sintomas deste descuido social geral para com o idoso é o escasso conhecimento que se tem de sua realidade psicológica, de sua subjetividade e da percepção que ele tem de si mesmo e do mundo em que vive. Os estudos referidos à velhice se concentram, em geral, nos aspectos demográficos, epidemiológicos, socioeconômicos, de seguridade social e de saúde física, deixando de lado a saúde emocional e o colorido dos sentimentos da pessoa que envelhece.
É pois, imperioso que a sociedade de um modo geral, e a psicologia em particular, se aproximem e conheçam a dimensão subjetiva, a problemática da saúde emocional e as potencialidades subjacentes do idoso. Muito pouco se sabe sobre como o idoso percebe a si mesmo e a seu envelhecimento, e isso será apenas o primeiro passo para estabelecer uma atenção psicológica e rastrear os fatores materiais e sociais que a determinam a angústia e a tristeza que rodeiam o envelhecimento. 
Temos a clara consciência de que a atenção ao idoso deve se realizar em bases interprofissionais e que é preciso estimular a formação de profissionais especializados, através da abertura de disciplinas específicas na Universidade.

O TRABALHO COM OFICINAS

            As Oficinas como recurso para o trabalho com Idosos é significativa, na medida em que é um método de capacitação inspirado no enfoque de “aprender fazendo” e baseia-se no exercício direto das capacidades dos participantes, como meio para alcançar os objetivos propostos.
Segundo Schmidt (1999, p.335), “as oficinas suscitam o rompimento com os estados de isolamento, ativam laços sociais e de comunicação, contribuindo para o desencadear de sentimentos de enraizamento e de pertença social”.  Não se trata de psicoterapia, mas tem um caráter terapêutico.
            Caracteriza-se pelo “fazer”, pelo clima acolhedor que garanta que os participantes se coloquem, verbalmente ou não sobre o tema proposto para a Oficina, o qual deve se fechar em cada uma delas.
As alunas responsáveis pelo presente trabalho haviam escolhido realizar um trabalho sobre e com a Terceira Idade, assim, após o levantamento bibliográfico inicial que possibilitou ao grupo a compreensão mais aprofundada das questões que envolvem as pessoas que estão nesse momento de suas trajetórias, participamos como observadores das Oficinas Histórias de Vida – Marcas de uma Vida que haviam sido propostas como parte integrante do estágio de Psicologia Clínica para o último ano do Curso as quais foram conduzidas por três estagiários com supervisão semanal e que tinham como objetivo, através da apropriação da história pessoal,  resgatar  o prazer pelas atividades sociais em ambientes que não fossem as paredes de suas casas ou asilos e abrir um espaço para que pudessem extravasar as vivências e os sentimentos contidos em cada um e, assim, proporcionar-lhes um espaço de escuta e acolhimento, com a possibilidade de  novo enlaçamento social.
Participaram das Oficinas Histórias de Vida – Marcas de uma Vida, 5  pessoas  com idade acima de 55 anos, sendo 4 mulheres e 1 homem. Tratava-se de um grupo fechado e heterogêneo. Os oficineiros tiveram as tarefas de criar as condições possibilitadoras para a elaboração e para a transmissão da experiência dos grupos nos quais atuam. Foram ao todo escolhidos três estagiários que tinham disponibilidade e interesse pelo trabalho, cada um deles cumprindo tarefas de coordenação, auxiliar de coordenação e auxiliar de infra-estrutura (filmagem, fotografia, etc).
            As Oficinas Histórias de Vida – Marcas de uma Vida,  foram subdividas por temas que se fechavam em cada Oficina, sem perder a visão do tema central, num total de 10 oficinas com duração de 2h e 30min cada.
         Todas as Oficinas foram filmadas, com o consentimento de todos, e em algumas delas foram feitas fotografias individuais e grupais as quais foram posteriormente comparadas com fotos que trouxeram de diferentes momentos de suas vidas e de seus familiares.
           Os temas, na ordem de sua execução, foram: Apresentação dos Objetivos e Enquadramento;  Quem sou e como sou hoje? O que é ser velho para mim? Brincar, brincar... (infância); Dançar, dança.;  Amar, casar, ter filhos;  Trabalhar, trabalhar;  O mundo de antigamente e este admirável mundo novo;  A solidão, a doença e a morte; A perspectiva para o futuro re-organizando a vida e criando novas possibilidades: O que posso fazer? O que quero fazer?; A experiência das oficinas: o que é ser velho para mim?
          A pedido dos participantes idosos na Oficina 7, foi realizado mais um encontro para que os mesmos pudessem conhecer e operar em computadores.] e também fazer uma festinha de encerramento e entrega de mimos.

          O QUE OBSERVAMOS


Seguindo a ordem das oficinas, inicialmente observamos que algumas pessoas estavam muito contraídas, outras mais disponíveis.  Não sentimos que havia um clima grupal, mas sim de um agrupamento de pessoas que compartem do mesmo interesse, apesar de não estar havendo vínculo emocional entre elas. Muitos participantes choraram ao relatarem alguns fatos de suas vidas.  Esse clima perdurou até a terceira oficina que já tinha um número menor de participantes.
Esta Oficina foi aberta com a leitura do poema Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu, houve troca de fotos e relatos de suas experiências e traquinagens infantis. À medida que mostravam as fotos iam relatando o que costumavam fazer, qual era sua rotina, do que costumavam brincar, suas maiores travessuras, suas melhores recordações da época, tudo o que faziam até chegar a adolescência.
Houve mudança no clima grupal, começaram a transitar de forma mais livre e descontraída, todos tinham interesse em ouvir os demais e emocionando-se com os relatos de seus companheiros de grupo.
Na quarta oficina  trouxeram coisas para comer e beber; enfeitaram a sala, num clima festivo, ouviram músicas antigas, pois o objetivo era relembrar a juventude, os bailes que participavam. Cada um contou como foram esses momentos em suas vidas, falaram de paixões e travessuras que faziam para poder participar das festas.
O clima grupal fica cada vez mais intenso em emoção e amizade. Todos se conhecem pelo nome e conversam de forma descontraída e cordial entre eles e com os estagiários.
As próximas oficinas possibilitaram-lhes relembrar desde os tempos em que conheceram seus maridos, o casamento, a chegada dos filhos, o primeiro trabalho, a construção material da vida adulta, as doenças, a perda de parentes e amigos, as alegrias, a aposentadoria, o choque com o mundo moderno, quando puderam falar da dificuldade de se adaptarem às mudanças que foram acontecendo no mundo com o passar do tempo, como, por exemplo, a chegada do computador e a falta de habilidade dos mesmos para mexer com essas máquinas. 
Falaram também das coisas boas que aconteceram, como a invenção da televisão, que muitos não tiveram condições de conhecer na época, mas que mais tarde foram conhecendo e o quanto gostavam dela.
Sentíamos que o clima grupal tão intenso emocionalmente, começa a presentificar o final dos encontros, levando-os a momentos de tristeza e choro, por terem que abandonar seus novos amigos. Começam, em função disso, a planejar encontros fora do grupo para diferentes atividades como visitas, passeios, jogos.
       Na penúltima oficina o objetivo era saber quais as perspectivas que o grupo tinha em relação a si mesmos, o que eles ainda gostariam de realizar e como realizariam seus projetos de vida.
          No início notamos uma certa resistência para se começar a falar e quando o fizeram, percebemos que era muito difícil falarem sobre si próprios; começavam a relatar as perspectivas que tinham em relação aos filhos, ou parentes próximos. Notando isto os estagiários perguntavam mais diretamente:  – Mas, e vocês? -- o que ainda querem fazer?
Neste ponto foi que o grupo começou a falar do que cada um “sonhava” em ainda fazer, alguns gostariam de aprender a tocar certos instrumentos, outros pensavam em fazer cursos de prendas domésticas, e o único homem da oficina pensava em construir um coral em sua igreja.
O que mais reparamos foi que para eles tudo isto era só um sonho, pois atribuíam vários empecilhos para não colocá-los em prática.
Os estagiários percebendo isto tentavam mostrar que apesar da idade ainda era possível realizar todos aqueles “sonhos”, que poderiam surgir algumas dificuldades, mas se prosseguissem persistindo chegariam ao objetivo, esclarecendo que as dificuldades acontecem sempre em nossas vidas, que o que muda como lidamos com as dificuldades: enfrentando-as ou paralisando-se.
Observamos também que eles agradeciam a oportunidade de estar presentes ali, dizendo que esperavam toda a semana por aquele momento e que não gostariam que as oficinas terminassem.
Uma das participantes, a que sentimos mais emocionada e triste com o final do grupo, trouxe um saquinho de bombons caseiros e um sabonete artesanal para cada um dos estagiários, observadores e supervisora.
A última oficina retomaria o tema inicial e deveria ser feita uma avaliação do processo. Relataram que adoraram os encontros e que muita coisa em suas vidas mudou a partir destes, não se sentiam mais angustiados como antes, e principalmente menos tristes. Lamentaram que este seria o último e disseram que se houverem  próximos estarão presentes.
 Um ponto em comum na fala de todos era que eles não se consideravam velhos, que podiam ser vistos pelos outros como tal, pela idade, mas por dentro não se sentiam velhos. Relataram um pouco de suas limitações físicas.
Foi passado um vídeo da segunda oficina para compararem o que haviam dito e o que diziam agora, e puderam perceber o quanto se sentem bem melhores hoje do que naquele momento, sem angústias sem aflições e sem medos, e ainda notaram diferenças físicas como: “nossa como eu estava abatida”.
Novamente lamentaram pelos que começaram o grupo não prosseguiram – “Eles não imaginam o que perderam”
Ao final do vídeo a supervisora entrou em sala com a lembrança que havíamos preparado para eles:  uma foto do grupo num porta-retrato,. Ficaram felizes e emocionados com a recordação.  Ao fim disto a professora agradeceu que eles tenham comparecido a todos os encontros, eles por suas vez disseram: “Nós é quem temos que agradecer, pois você nunca saberá o bem que estes anjos, como  você , nos fizeram”.  Anjos era o apelido que o grupo deu aos estagiários.

OUTRAS CONSIDERAÇÕES

       Consideramos que as oficinas para idosos são um trabalho de retorno e melhora, com  mudanças visíveis em suas vidas, seus sentimentos quanto a velhice, com a superação de problemas e do sentimento de incapacidade. Ao longo dos encontros, foram relatando como estavam melhorando em todos os aspectos de suas vidas, pessoal, familiar e social.  Acompanhamos e acolhemos os sofrimentos trazidos por cada um, depois de alguns encontros, a diferença do semblante a cada encontro era melhor, podíamos notar sem esforços.

Para nós, enquanto alunas, foi muito importante e significativo estar participando deste trabalho em conjunto com estagiários, pois tivemos a oportunidade de conhecer e estar integrados num trabalho prático que nos possibilitou aprender como conduzir uma oficina.
A experiência de cada idoso passada a cada um de nós foi muito gratificante, podemos dizer até mais do que isso, foi uma lição de vida, um empurrão para que a cada momento da nossa vida, possamos viver, viver.
Pudemos entender que velho é aquele que tem diversas idades: a idade do seu corpo, da sua história genética, da sua história psicológica e da sua ligação com a sociedade, as marcas da sua vida deixadas em suas rugar e expressões.  Mas é a mesma pessoa que sempre foi.
A atitude mais acertada está em entender a velhice como uma circunstância ampla, com múltiplas dimensões, pois sendo um momento do processo existencial, não deixa de ser também um fato social e cultural e, especialmente nestes dos dois últimos aspectos, é toda uma realidade dependente de juízos de valor e, portanto a velhice não pode ser jamais interpretada nas posições positivas e negativas sem o risco de se cometerem graves enganos.
Assim, parece ser necessário esclarecer a realidade da velhice, descortinar sua verdadeira posição na vida. O homem, para seu próprio benefício tem de re-aprender a verdadeira situação  da velhice, pesquisar, estudar, ouvir o idoso, para que ele não cultive sua própria infelicidade. É preciso criar condições de esclarecer não só o idoso, mas também a sociedade a o olhar sem preconceitos e assumir sua verdadeira posição no mundo, refazendo suas próprias percepções sobre esta fase da vida, assumindo-se, mudando comportamento, esclarecendo os jovens, a partir da mais tenra infância, de que a vida é um processo e que o viver não se interrompe e nem que uma etapa vida é melhor do que a outra.












[1] Este artigo  apresenta o resultado do Trabalho Integrado sobre Velhice  (Sobre o Envelhecimento) e das observações realizadas pelas alunas do 5º período de 1999 (Karla Cristina da Fonte Araújo, Maria Amélia de Almeida e Sabrina Machado da Rocha)  das Oficinas Histórias de Vida – Marcas de Uma Vida que eram parte integrante do Estágio em Psicologia Clínica II do 10º período do mesmo ano  e que foram realizadas com pessoas idosas de ambos os sexos, com o objetivo de contribuir com a qualidade de vida dessas pessoas, sensibilizando-as para a elaboração de um novo projeto de vida e utilização do tempo ocioso.  A partir das observações as alunas do Trabalho Integrado concluíram que os objetivos foram alcançados e que o trabalho com Oficinas para a Terceira Idade, ao retomar as experiências do passado e as lembranças, possibilita um novo olhar para o futuro e é de extrema relevância para minorar o sofrimento emocional dos velhos, relacionado às inúmeras perdas sofridas por eles.  A parte teórica do trabalho está publicada neste Post sob o título SOBRE O ENVELHECIMENTO.

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