Este curso de psicologia, um dos mediadores para o cumprimento de um dos objetivos institucionais, tem 43 anos e nesses anos muita coisa aconteceu! Participei, pelo menos, de setenta por cento deste tempo e, por tal razão, sinto-me autorizada a contar alguma coisa para vocês sobre este polêmico curso. Entretanto, este contar não será uma simples sequência histórica de acontecimentos, mas é resultado de uma compreensão forjada junto com alguns de meus pares e sob um referencial teórico, portanto sujeito a críticas e a outras análises, sempre bem vindas.
Feitas tais ressalvas, espero encontrar quem acredite no que eu tenho para contar.
Não tenho muitas dúvidas quando identifico que o referido
Curso passou por três períodos muito bem delineados e que podem ser
compreendidos à luz dos processos grupais. Minha dissertação de mestrado discorreu sobre a história e a memória deste curso de psicologia.
O primeiro período
que vai desde a abertura do curso de psicologia em 1969 até o final da década
de setenta. A grande marca deste momento foi a
gestação de um espaço institucional onde cabia a paixão pelo ensinar e
as diferenças. Foi o período qualificado
como a época de ouro do curso! Culmina com uma greve dos estudantes do Curso de
Psicologia (e de outros cursos), em que várias reivindicações foram feitas, as
quais mudaram os rumos da política institucional com conseqüências bastante
sérias para a estrutura e para a identidade do curso de Psicologia.
O segundo período
chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente, quando se consolida o
eclipse do curso e uma espécie de “guetização”
das disciplinas mais formadoras de opinião e mais voltadas para a
crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho que movimentaram os
primeiros anos do curso de psicologia.
O terceiro período, delimitado do final dos anos 80 até o
início dos anos 2000, mostrou-se apático, sem sal nem pimenta, prenhe de
atitudes encobertas, demissão de professores e contratação de novos. O
emblemático desse período foi a absoluta falta de transparência nas ações
relativas ao Curso de Psicologia.
O quarto período, é
nebuloso e dele não participei ativamente, mas de relance. Seria necessário alguns depoimentos para poder qualificá-lo assim ou assado. Portanto,
este último período não será aqui
discutido.
Em 1969, o Brasil amargava o período de ditadura
militar instalada em 1964. Nessa época havia apenas três cursos de Psicologia
em São Paulo, mas a iniciativa privada tomava fôlego e começava a ver na educação grandes possibilidades financeiras. Um novo curso de psicologia foi aberto no interior de São Paulo e foi convidado um bacharel de psicologia da Universidade de São Paulo para organizar e dar uma “cara” de Psicologia ao novo
curso. Era o polonês. Este convidou seus
amigos: dois brasileiros, um japonês e um espanhol , que numa progressão,
convidaram outros e outros colegas. Eles deviam ter uns 25 anos, não mais que
isso!
O marco que possibilitou o encontro do iniciador e
dos outros professores foi a busca de um ideal de educação e de intenção de
desenvolver uma série de idéias em educação em Psicologia, visando fazer um
curso de bom nível.
Kaës (1997) ensinou que
no processo da construção do “nós” grupal, isto no momento de deixar a série para formar o conjunto, é
preciso denegar (deixar de fora) o específico de cada um, formando-se um pacto
que exclui a diferença e pode constituir
uma defesa que não permite a individuação. É um momento delicado e específico
na produção de estancamentos, cristalizações e estereotipias, pois não gera o
novo.
No movimento histórico e no processo desse agrupamento
específico, tudo parecia correr bem e se desdobrava num momento marcado pela
unificação e integração do semelhante e exclusão dos diferentes, formando-se um
contrato narcísico grupal. Este momento caracterizou-se pela formação das
equipes de trabalho que se constituíram por semelhanças teórico-metodológicas
(equipe de psicologia experimental, equipe de clínica, equipe de social, etc.)
e pela exclusão do intruso, designado como inimigo que, nesse momento, era sempre exterior ao curso, não estava na
“outra” equipe diferente, mas em algo externo ao curso e que podia ameaçar a
“suposta” integridade grupal do curso.
Este momento originário, com a força da sua fantasia, conseguiu produzir debates
travados ao nível acadêmico, com intensa participação dos alunos, mas que ainda não explicitava a violência e os
conflitos de rivalidade fraterna implícitos e que asseguravam o pacto
narcísico, ilusório.
Este período começa a fenecer e culmina com uma
greve dos estudantes do curso de psicologia (e de outros cursos), em que várias
reivindicações foram feitas, as quais mudaram os rumos da política
institucional com conseqüências bastante sérias para a estrutura e para a
identidade do curso.
Poderíamos pensar que numa outra ótica institucional, a
greve poderia ter sido entendida como um movimento e processo de busca e de
constituição de um espaço de ensino democrático, crítico e reflexivo, como
parecia ser no discurso institucional explícito. Mas, numa universidade
empresa, a greve vai ser entendida como uma ameaça e uma anormalidade ao bom
desenvolvimento.
Não havendo espaço possível, o movimento grupal é
interrompido pelo movimento maior da instituição incapaz de compreender o que
se gestava no interior do curso de psicologia, identificando como perigoso para
sua sobrevivência aquilo que ocorria no curso (discussões, reivindicações,
debates e etc.). Essa leitura vai remeter o curso ao risco de morte, não
lhe possibilitando encontrar caminhos inovadores para seus conflitos. Este
primeiro episódio da história deste curso vai se repetir ao longo do tempo,
marcando um estilo de gestão institucional.
Os fatos que ficaram
registrados na memória dos entrevistados foram uma direção imposta ao curso,
alheia à área e às deliberações do corpo docente e a vinda de um assessor
externo, amparado pela instituição, para mudar os rumos das coisas. Ambos foram
interferências cruciais e significativas,
apontados como processos autoritários, com grande peso na derrocada do
curso, embora houvesse condições objetivas que indicavam a possibilidade da
consolidação do curso em algum campo,
área ou circunscrição da Psicologia.
Frente
ao rumo que as coisas foram tomando com o fechamento do curso noturno e com uma
baixa oferta de aulas, alguns professores vão se afastando sucessivamente, ou
por vontade própria ou por serem demitidos. O curso fica acéfalo na medida em
que um coordenador (que nem era
psicólogo) é imposto de fora, além de se contratar uma assessora externa para
dar conta dos conflitos do departamento de Psicologia.
Apesar da competência
da assessora contratada, esta consegue apenas “conter” a crise ao nível
objetivo, deixando de lado a negatividade,
e não produz mudança. Poderíamos aqui usar a metáfora de Freud (1921-1980) sobre a tropa em que o general
“perde a cabeça” e seu grupo fica acéfalo, perdendo sua força, antes de
alcançar sua posição de alteridade.
O curso inicia um processo lento de agonia. É interessante que
as falas escatológicas pronunciadas ("o defunto não foi enterrado" por exemplo) pelos envolvidos continham alguma verdade.
Os professores do momento original, que nessa ocasião saíram do curso,
conseguiram construir suas carreiras acadêmicas com brilhantismo, fazendo hoje
parte da elite da psicologia no Brasil. Na medida em que essa instituição ou
este lugar não poderia se constituir mais um objeto transitório na vida dessas
pessoas, elas procuraram outras possibilidades de sonhar e quem ficou, ficou
agarrado numa ilusão!
A partir dos episódios citados delineia-se o segundo
período do curso que chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente,
quando se consolida o eclipse do curso e uma espécie de “guetização” das disciplinas mais formadoras de opinião e
mais voltadas para a crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho
que movimentaram os primeiros anos do curso de psicologia.Houve objetivamente a diminuição da demanda, mas
provavelmente essa diminuição se deu muito mais pela perda de visibilidade e
indefinição do curso, do que pela abertura
de novas IESP’s em diferentes
locais do interior de São Paulo e da Grande São Paulo, que ofereciam muitas
vagas para os cursos de psicologia.
Este período foi
relembrado, em depoimentos utilizados na dissertação, como de absoluta decadência alimentada pelo abandono e pelo
desinteresse institucional quanto ao destino do curso de psicologia e também
pela incapacidade do corpo docente e dos seus coordenadores em imprimir ou
configurar novas formas de atuação, seja pelo conformismo, pelo ressentimento
ou pela nostalgia do tempo melhor que existia ainda há pouco e constantemente rememorado pelos
remanescentes daquela época.
Os novos professores que chegaram para substituir os colegas
eram ex-alunos ou pessoas da própria cidade que deixaram de reciclar-se e de
organizar-se para fazer frente à situação, talvez sem perspectivas concretas de
uma carreira docente ou, pelo menos, de certa segurança de emprego, que
fizessem jus ao esforço de se aprimorarem cursando uma pós-graduação ou uma
especialização.
Os alunos alheios a tudo, como marca deixada pela história
recente do país ou incentivados por alguns professores para o confronto,
tornaram-se ou queixosos e submissos ou ativistas políticos, estabelecendo uma
política de confronto direto com a
instituição.
O terceiro período iniciado a partir do final dos anos oitenta
mostrou-se, inicialmente, como um período apático e de absoluta
falta de transparência nas ações relativas ao curso de psicologia.
Em meados da década de noventa, vislumbram-se novos
horizontes, quer quanto à possibilidade de transparência das ações empreendidas
pela administração, quer quanto ao fortalecimento do corpo docente favorecido
pela qualificação e pela elaboração de alguns conflitos, quer quanto ao corpo
discente que, paulatinamente, começou a questionar e a renascer das cinzas.
Novo pólo identificatório ressignifica o mito originário, com
uma injeção de investimentos institucionais no curso que acenam um discurso
empresarial mais progressista, movimentando as pessoas através da exigência de
qualificação premida pelo mercado e pelas pressões das Novas Diretrizes
Curriculares e do Exame Nacional de Curso.
Entra em cena uma nova coordenação que, apesar de ser de
fora do curso e imposta, não impediu o “pacto coletivo”. A coordenação anterior havia sido “demitida” do cargo por um
luto simbólico do corpo discente em luto verdadeiro pela demissão de uma
professora muita querida, e envolvida com a formação da consciência crítica e
de sujeitos emancipados. Esse episódio é paradigmático por duas razões.
Primeiro porque faz compreender a escolha institucional
empresarial que se ratifica na demissão de uma professora representante do
pensamento crítico de esquerda. Este fato se torna um exemplo da diferença que
não mais será suportada, marcando o limite daquilo que a instituição, a partir
de então, pode suportar, produzindo novamente o silenciamento da crítica
mobilizadora dos conflitos (negatividade).
Segundo, porque a partir da reparação e elaboração do luto
pela professora demitida foi possível resgatar um contrato fraterno que
produziu concretamente algumas mudanças:
(1) nos alunos: uma Semana de
Psicologia intensa e reflexiva e
(2) nos
professores: um trabalho intenso de elaboração de um novo
currículo, afetivamente nomeado como “nosso” currículo.
“Nosso” revela algo produzido internamente, em conjunto, não
externamente, como o currículo da assessora contratada para solucionar os
conflitos de 1978 e que vigia até o momento, com pequenas alterações.
Para alguns dos professores o “nosso” currículo
imaginariamente resgatava o mito originário da possibilidade das diferenças e
diversidade em todos os níveis e poderia alavancar o grupo para o resgate da
sua história e da sua singularidade. Ledo engano! Não quiseram saber aquilo que já sabiam: a
diferença estava excluída novamente!
Isto foi possível porque as expressões da negatividade foram
depositadas na coordenação daquele momento. O grupo neutralizou as diferenças
existentes entre seus membros, que nunca foram realmente elaboradas. Mas as
diferenças existem e retornam no real quebrando a ilusão grupal (“quanto mais a
gente reza mais aparecem fantasmas!”).
Convém falar um pouco sobre as diferenças grupais ou
subgrupos nomeados de “os apaixonados”,
“os medrosos” e os “subterrâneos”.
“Os apaixonados”se
identificam pela paixão: paixão por ensinar, por transmitir, por permitir o
novo e a diferença. Sua ética é a do desejo e da “solidariedade” (sentido
habermasiano, não cristão). Aqui há o medo, mas esse medo é real, pois a
realidade o merece, como nos ensinou Adorno em Educação após Auschwitz (Cohn, 1986);
ele não é destrutivo quanto o é o medo que vai caracterizar o sub-grupo “os
medrosos”, um medo reprimido que, ao voltar, pode ter consequências drásticas,
como a submissão inconfessa e alienante.
No subgrupo “os medrosos”, alguns membros conseguem fazer
“alianças” momentâneas com os do subgrupo “apaixonados por ensinar”, mas num
momento de insegurança ou ameaça de perigo, real ou imaginário, tornam-se
alcaguetes, compactuando com o poder instituído.
O subgrupo “os subterrâneos” funciona numa ética cínica e
perversa em que alianças são feitas com a autoridade e as alianças com os
outros subgrupos só são feitas instrumentalmente, na medida em que garantem
ganhos específicos para si próprios. O que gerencia este grupo, é unicamente a
permanência na instituição, seja por que preço for; o seu investimento não é no curso e se mantem em posições individualistas e instrumentais, utilizando como estratégias ora do
pacto grupal, ora do poder instituído. Em termos da Escala F de Adorno (Adorno, 1965), os membros do grupo “os subterrâneos” podem ser entendidos como
“manipuladores” que aderem imediatamente
ao instituído e deslocam seus impulsos agressivos para um alvo externo. No caso
específico, aos professores do subgrupo “os apaixonados” mais ameaçadores e até
à coordenação que não lhe interessa e aos alunos que conseguem vislumbrar esse
poder oculto.
Vale ressaltar que "os subterrâneos" talvez sejam os mais adequados para permanecerem numa
organização regida pela lógica do mercado, enquanto que os primeiros, nessa
ótica desenvolvimentista, são identificados como ameaçadores da ordem
instituída, ficando aprisionados e silenciados, apesar das suas qualificações,
pelo risco real de demissão.
Apesar das diferenças internas, os professores, no momento
da construção do “nosso” currículo, têm um movimento grupal. Mas, outro grande
desorganizador se imiscui e novamente vê-se a repetição: o processo grupal, que
iniciava e necessitava de um percurso para transpor sua gestação, é abortado.
Como isso ocorreu no nosso entender? Vejamos.
O “nosso” currículo começa sua vigência em 1999 e deveria
estar sendo avaliado para que pudesse ser redimensionado no que fosse
necessário. Novos operadores sócio-culturais e macro institucionais vão
atravessar o grupo de professores impedindo que
essa avaliação fosse feita: mudanças na administração superior excluindo
a área progressista levaram à mudanças nas coordenações de quase todos os
cursos. No curso de psicologia, em 2000, se
repete o mesmo enrijecimento do final do primeiro período, com a intensificação
de processos autoritários representados nos atos da nova coordenação que, como primeiro ato, “impõe” outro
currículo (aqui chamado de novíssimo currículo) para começar sua vigência em 2001. O que significava esse novíssimo currículo de 2001?
Diga-se de passagem, o currículo estava absolutamente de acordo
com as diretrizes curriculares do MEC propostas para a psicologia, ainda não
aprovadas, sobre as quais havia o debate do Fórum de Entidades Nacionais da
Psicologia Brasileira da qual o CFP é parte integrante. (Jornal
do CRPSP de dezembro de 2002, p.07). Entendemos que trazia em seu bojo o ranço da política neoliberal,
a denegação da diferença e da pluralidade das posições individuais e apresentava um cientificismo e autoritarismo que
atravessavam todos os níveis, atingindo, inclusive a sala de aula, que
sempre foi uma “brecha” de possibilidade de ampliação da consciência, mesmo em
épocas em que a barbárie estava mais visível como no nosso período ditatorial.
Neste momento todos ficam paralisados também na sala de aula e o medo, embora
não tão real quanto era na ditadura, afeta a todos sem que possam identificar
claramente sua origem.
Nesse novíssimo currículo, o que se propunha era, na realidade, um esvaziamento
da sala de aula, pois o mais importante é que os alunos estejam fazendo tarefas
e coisas que não impliquem na relação professor-aluno, as quais não têm a
“força” criadora da sala de aula, espaço entendido como a “brecha”
institucional facilitadora da articulação dos conteúdos inomináveis, dos
restos, um dos instrumentos possibilitadores de reflexão crítica. Compactuava com e representava eficientemente o discurso hegemônico que implica na renúncia
do ato de educar, gerando violência, já que acaba com o simbólico, fazendo a
negatividade se patologizar e retornar no real.
As turmas existentes no curso de psicologia passam por adaptações
curriculares causando até 2002 um profundo mal-estar em todos, sem que se
consiga identificar exatamente onde está situado tal mal-estar. Além disso, a turma que entrou em 1999 é “cooptada” a
concordar com o novo tempo do Curso de Psicologia: quatro anos!
Institucionalmente transformam-se os vários cursos em semestrais e não mais
anuais. Os professores do curso de psicologia, sentindo-se desrespeitados em sua
competência, deixaram de participar das reuniões para “novas discussões”
curriculares, embora tivessem sido convidados a participar. Na realidade, não
foram discussões, mas simplesmente “comunicações” verticalizadas da nova
coordenadora, que é figura respeitada na
psicologia no Brasil, mas que tem como traço de sua personalidade, no nosso
entender, desqualificar aquilo que é produzido no Brasil e/ou pelos nossos
alunos e professores numa ótica emancipatória, ficando atrelada a uma visão de
progresso marcada pela produção científica do primeiro mundo (EUA e Canadá,
principalmente). Sua função, entretanto, parece ser devidamente autorizada pela
instituição.
Outro episódio significativo é que a turma que estava no
quinto ano em 2000 (currículo antigo) consegue no Exame Nacional de Cursos
(Provão) a classificação B colocando a instituição em terceiro lugar no
ranking universitário! Para conseguir manter a nota do Provão, impõe-se para as
turmas de quarto e quinto ano, a partir de 2001, os famosos “mini-cursos”
tentando corrigir as supostas falhas das disciplinas e dos professores no seu
ofício de ensinar. O semestre letivo se transforma num “intensivão”
preparatório.
Alguns depoimentos de alunos revelam o seu mal-estar: “[...] o provão foi algo que entristeceu não só
a mim, como a todos da sala que se sentiram frustrados já que se tivéssemos
aula teríamos nos saído melhor, pois as questões englobavam o que estava sendo
ensinado[...]” “[...] terrível! o primeiro semestre foi totalmente dedicado a esta
porcaria de testes. De repente começou um menosprezo gigante sobre o que nós
havíamos aprendido durante quatro anos [...] a pressão deixou a todos nervosos [...] hoje relendo as questões me lembro de que tudo foi falado no decorrer do curso
e que, portanto, as pressões fizeram-nos perder um ótimo final de curso[...]” “[...] horrível porque os mini-cursos destituíram meu saber, foi como se tudo o que
aprendi não valesse para fazer essa prova. Fiquei nervoso e fui mal [...]”
Apesar desses mini-cursos, as turmas de quarto e quinto de
2001 e 2002, não mantêm o B da primeira turma que fez o provão, tendo obtido
dois C’s consecutivos. Obviamente há responsabilidade dos professores nisso, porém,
premidos pela necessidade do emprego ou se transformaram em “meros executores”
da ordem implicitamente dada ou só puderam fazer resistência no seu
silenciamento, o que também implicava num medo real.
O primeiro movimento de apatia que se instaurou no início de
2001 resultava da inviabilidade do novíssimo currículo e o espaço que teria
nele uma visão emancipatória. Entendemos que se instalou uma incongruência
entre os diferentes subgrupos, especialmente o subgrupos “os subterrâneos” que gerou alianças com a coordenação, rompendo
explicitamente com o “pacto do coletivo”, trazendo à tona uma desagregação
absoluta e a instauração de relações paranoicas entre todos os professores. A desagregação vivida e sentida vai sendo transmitida na
sala de aula, cristalizada na dificuldade de “adaptação” ao novo currículo, às
novas disciplinas e à nova forma de ensinar com modernas tecnologias “fast
food”. Um cunho disciplinador, que vigiava e controlava a tudo e a todos, não
deixava brecha para a crítica, que a partir daí é (re)lida como oposição
institucional ou como boicote do projeto institucional. Generalizadamente se
vivencia um “mal-estar” que se desdobra na formação dos alunos como um
“não-aprender” e como uma “correria” na produção de tarefas e atividades.
Na realidade, a apatia, o silenciamento e a desagregação
inicial foram necessários diante da ameaça de morte e de exclusão, mas foram
sendo superados, num segundo momento, onde se começou resgatar a pequeníssima
brecha da sala de aula, sustentada através do ato educativo. Foi possível aos
professores do subgrupo “os apaixonados” perceber que a brecha estava neles
mesmos, na paixão de ensinar e no seu sonho. Neste espaço e nas diferentes
disciplinas que restaram foi-se fazendo
a crítica ao cientificismo e ao autoritarismo, pagando-se os riscos desta
posição.
O deslocamento do
mal-estar fica cristalizado no currículo novíssimo e também no boato que
circula: os subgrupos “os apaixonados” e
“os medrosos” são “inimigos” do subgrupo
“os subterrâneos” e da coordenação. Dos diferentes estratos institucionais pode-se ouvir nas
entrelinhas do discurso: quem estiver conosco fica, caso contrário sai (esta
fala já havia sido explicitamente dita no passado!).
Entretanto, aquilo que é destinado a não ser falado e que se presentifica em todas as situações
cotidianas como aquele mal-estar inominado, vai gerar duas explosões de vida
do corpo discente.
Na primeira explosão os alunos no final do primeiro
semestre de 2001, escrevem três cartas que nomeiam o mal-estar e das quais
retiramos alguns trechos expressivos:
(...) A fim de
espremer em menor tempo um grande volume de informações, o atual currículo (o novíssimo) impõe, desta forma, aos
professores e alunos o cumprimento de prazos e programas de aula num ritmo
estressante e alienante. Envolvidos com
tantas exigências, os alunos não têm tempo para pensar e refletir criticamente
sobre a práxis, facilitando, sem se dar conta, a tomada de decisões por
instâncias alheias às suas reivindicações e direitos, devido ao esgotamento
físico e mental a que estão sendo submetidos como ‘cobaias’, cujos
comportamentos indicarão, ao final da ‘experiência’ executada pela coordenação
do curso, se a mudança curricular valeu a pena de fato. Não entraremos neste jogo! Entendemos que a
educação é uma ferramenta para a prática da liberdade, devendo gerar indivíduos
críticos e preparados para socorrer uma sociedade em crise. Por isso, queremos
ser ouvidos! Queremos um programa de aulas condizentes com o tempo de que
dispomos diariamente para estudar. E exigimos novas mudanças curriculares para
o ano que vem, desta vez sim, considerando os anseios dos alunos da Psicologia.
(09/05/01). [...] não queremos uma formação tecnicista! Se a técnica é
importante, é inegável que o embasamento teórico também o é, integrando o saber
acadêmico à prática, na produção do conhecimento” (17/09/01).
[...] Não será o
aluno, cliente desta instituição, capaz de avaliar o atual currículo,
verificando sua eficácia dentro da realidade prática das salas de aula e
fornecendo indicadores sobre a necessidade de possíveis mudanças? Afinal, o
aluno tem voz nesta universidade? (11/06/01).
A coordenação responde às reivindicações com argumentos
convincentes, repetindo o mesmo padrão institucional relatado anteriormente no
início da segunda década do curso, após a greve dos alunos: abafamento das
reivindicações tomando as tentativas de participação e de análise crítica dos alunos
como um equívoco facilmente esclarecido com uma resposta, de forma
absolutamente coerente com o discurso institucional da empresa.
Um dos membros do subgrupo “os subterrâneos” cria a ilusão de que através de uma carta dirigida ao Diretor do Centro apoiando a
coordenação e seu novíssimo currículo poderia salvar sua pele e tomar o lugar
da lei. Pede adesão aos professores para assinar a carta e envia flores à
coordenação em nome da totalidade dos professores, cuja grande maioria sequer
sabia do mimo. Nessa carta, algo chama a atenção e irrita: “[...] fizemos conquistas
incríveis neste último ano e meio, depois da vinda da atual coordenadora. Estamos
reconquistando o valor e o respeito do início do curso, nos anos 70.[...]”. É uma leitura surpreendente, pois o que se
repete é o abafamento das diferenças e das contradições, porque em mais nada
lembra o início do curso, inclusive pelo pequeno número de alunos (cerca de
130) se comparado com os 1200 alunos dos anos iniciais!
Como abafado, o mal estar permanece e começa
emergir no descontentamento, no sarcasmo e na apatia dos alunos e dos
professores do subgrupo “os apaixonados” até culminar
numa segunda explosão discente no final do segundo semestre de
2002, agora explicitamente contra a pessoa da coordenadora, pois se dão conta
de que o mal-estar de todos é de sua (dela) responsabilidade na condução do
curso e na imposição do novíssimo currículo.
Realizam-se algumas assembleias de
alunos de onde se tiram algumas reivindicações e ações: querem fazer panelaço
pelos corredores dos campi com faixas e camisetas escritas: “Fora!”; “Queremos que nos ouçam, por favor!”; “Queremos ter orgulho de pertencer ao Curso de Psicologia desta
Universidade!” e assim por diante.
Ingenuamente, alguns professores, justamente “os
apaixonados”, acalmam os ânimos dos alunos mais ativistas esclarecendo-lhes que
a questão não pode se tornar pessoal, mas sim que se trata de uma concepção de
currículo que está em jogo e precisa ser questionada.
Hoje, afastados dos fatos tão impactantes e podendo analisar objetivamente
os mesmos, pode-se entender que essa
atitude foi um balde de água fria no
movimento, que se paralisa, perde na intensidade, dilui-se em nada, ou melhor,
culmina com a demissão de professores respeitados pelos alunos. Assim, as (in) conclusões são:
É pura ingenuidade e pura ilusão da paixão tratar através do
diálogo, relações desiguais de poder;
O caminho trilhado pelo dispositivo institucional e suas
escolhas, levam à desvitalização do espaço de produção criativa no ensino e na
formação;
Alunos e professores não conseguiram sustentar-se num movimento
que produzisse mudanças qualitativas: uma dialética sem síntese;
As marcas das explosões de vida foram subjetivas, narcísicas e
alienadas. Quando defrontados com as respostas institucionais, os alunos não
sustentaram suas análises críticas e o movimento se esvaziou; os alunos ficaram à
deriva, buscaram a paixão e a força no subgrupo “os apaixonados”, mas não se
deslocaram de sua alienação básica, sempre buscando um senhor que desse corpo e
morada às suas subjetividades fragmentadas;
Todos, alunos e professores se aproximaram do subgrupo “os
medrosos” e ficaram “rebocados num merengue” como diz o famoso tango “Cambalaches”
de Enrique Santos Discépolo.
A pergunta que ficou no ar: “era o fim do começo ou o começo do
fim?”
[1]
Trabalho originalmente realizado por Borges, Fátima Gonzalez Mosfp; Henriques,
Wilma Magaldi e Olmos, Jozélia Regina Díaz para o III Congresso Norte-Nordeste
de Psicologia – “Construindo a Psicologia Brasileira: Desafios da Ciência e da
Prática Psicológica”, realizado na Fundação Espaço Cultural, em João Pessoa/PB,
de 27 a 31 de maio de 2003 na atividade Experiência em Debate, sob o título
IMPACTOS NOS PROFESSORES E ALUNOS DE UM CURSO DE PSICOLOGIA ATRAVESSADOS PELAS
REFORÇAS CURRICULARES.
ADORNO, Theodor et alii. La Personalidad Autoritária. Buenos Aires, Proyección, 1965.
COHN, Gabriel. Theodor W. Adorno. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986.
FREUD, S. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund FREUD; v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
KAËS, R. O grupo e o sujeito do grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
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