quarta-feira, 18 de setembro de 2013

QUANTO MAIS A GENTE REZA, MAIS APARECEM FANTASMAS![1]

Este curso de psicologia, um dos mediadores para o cumprimento de um dos objetivos institucionais,  tem 43 anos e nesses anos muita coisa aconteceu! Participei, pelo menos, de setenta por cento deste tempo e, por tal razão, sinto-me autorizada a contar alguma coisa para vocês sobre este polêmico curso. Entretanto, este contar não será uma simples sequência histórica de acontecimentos, mas é resultado de uma compreensão forjada junto com alguns de meus pares e sob um referencial teórico, portanto sujeito a críticas e a outras análises, sempre bem vindas.

Feitas tais ressalvas, espero encontrar quem acredite no que eu tenho para contar.

Não tenho muitas dúvidas quando identifico que o referido Curso passou por três períodos muito bem delineados e que podem ser compreendidos à luz dos processos grupais. Minha dissertação de mestrado discorreu sobre a história e a memória deste curso de psicologia. 

O primeiro período que vai desde a abertura do curso de psicologia em 1969 até o final da década de setenta. A grande marca deste momento foi a  gestação de um espaço institucional onde cabia a paixão pelo ensinar e as diferenças.  Foi o período qualificado como a época de ouro do curso! Culmina com uma greve dos estudantes do Curso de Psicologia (e de outros cursos), em que várias reivindicações foram feitas, as quais mudaram os rumos da política institucional com conseqüências bastante sérias para a estrutura e para a identidade do curso de Psicologia.

O  segundo período chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente, quando se consolida o eclipse do curso e uma espécie de “guetização”  das disciplinas mais formadoras de opinião e mais voltadas para a crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho que movimentaram os primeiros anos do curso de psicologia.

O terceiro período, delimitado do final dos anos 80 até o início dos anos 2000, mostrou-se apático, sem sal nem pimenta,  prenhe de  atitudes encobertas,  demissão de professores e contratação de novos. O emblemático desse período foi a absoluta falta de transparência nas ações relativas ao Curso de Psicologia.

O quarto período, é nebuloso e dele não participei ativamente, mas de relance. Seria necessário alguns depoimentos para poder qualificá-lo assim ou assado. Portanto, este último período  não será aqui discutido.

Em 1969, o Brasil amargava o  período de ditadura militar instalada em 1964. Nessa época havia apenas três cursos de Psicologia em São Paulo, mas a iniciativa privada tomava fôlego e começava a ver na educação grandes possibilidades financeiras. Um novo curso de psicologia foi aberto no interior de São Paulo e foi convidado um bacharel de psicologia da Universidade de São Paulo para organizar e dar uma “cara” de Psicologia ao novo curso. Era o polonês. Este  convidou seus amigos: dois brasileiros, um japonês e um espanhol , que numa progressão, convidaram outros e outros colegas. Eles deviam ter uns 25 anos, não mais que isso!

O marco que possibilitou o encontro do iniciador e dos outros professores foi a busca de um ideal de educação e de intenção de desenvolver uma série de idéias em educação em Psicologia, visando fazer um curso de bom nível.

Kaës (1997) ensinou que no processo da construção do “nós” grupal, isto no momento de  deixar a série para formar o conjunto, é preciso denegar (deixar de fora) o específico de cada um, formando-se um pacto que exclui a diferença  e pode constituir uma defesa que não permite a individuação. É um momento delicado e específico na produção de estancamentos, cristalizações e estereotipias, pois não gera o novo.

No movimento histórico e no processo desse agrupamento específico, tudo parecia correr bem e se desdobrava num momento marcado pela unificação e integração do semelhante e exclusão dos diferentes, formando-se um contrato narcísico grupal. Este momento caracterizou-se pela formação das equipes de trabalho que se constituíram por semelhanças teórico-metodológicas (equipe de psicologia experimental, equipe de clínica, equipe de social, etc.) e pela exclusão do intruso, designado como inimigo que, nesse momento,  era sempre exterior ao curso, não estava na “outra” equipe diferente, mas em algo externo ao curso e que podia ameaçar a “suposta” integridade grupal do curso.

Este momento originário, com a força da sua fantasia, conseguiu produzir debates travados ao nível acadêmico, com intensa participação dos alunos,  mas que ainda não explicitava a violência e os conflitos de rivalidade fraterna implícitos e que asseguravam o pacto narcísico, ilusório.

Este  período começa a fenecer e culmina com uma greve dos estudantes do curso de psicologia (e de outros cursos), em que várias reivindicações foram feitas, as quais mudaram os rumos da política institucional com conseqüências bastante sérias para a estrutura e para a identidade do curso.

Poderíamos pensar que numa outra ótica institucional, a greve poderia ter sido entendida como um movimento e processo de busca e de constituição de um espaço de ensino democrático, crítico e reflexivo, como parecia ser no discurso institucional explícito. Mas, numa universidade empresa, a greve vai ser entendida como uma ameaça e uma anormalidade ao bom desenvolvimento.

Não havendo espaço possível, o movimento grupal é interrompido pelo movimento maior da instituição incapaz de compreender o que se gestava no interior do curso de psicologia, identificando como perigoso para sua sobrevivência aquilo que ocorria no curso (discussões, reivindicações, debates e etc.). Essa leitura vai remeter o curso ao risco de morte, não lhe possibilitando encontrar caminhos inovadores para seus conflitos. Este primeiro episódio da história deste curso vai se repetir ao longo do tempo, marcando um estilo de gestão institucional.

Os  fatos que ficaram registrados na memória dos entrevistados foram uma direção imposta ao curso, alheia à área e às deliberações do corpo docente e a vinda de um assessor externo, amparado pela instituição, para mudar os rumos das coisas. Ambos foram interferências cruciais e significativas,  apontados como processos autoritários, com grande peso na derrocada do curso, embora houvesse condições objetivas que indicavam a possibilidade da consolidação do curso  em algum campo, área ou circunscrição da Psicologia.        

Frente ao rumo que as coisas foram tomando com o fechamento do curso noturno e com uma baixa oferta de aulas, alguns professores vão se afastando sucessivamente, ou por vontade própria ou por serem demitidos. O curso fica acéfalo na medida em que um coordenador  (que nem era psicólogo) é imposto de fora, além de se contratar uma assessora externa para dar conta dos conflitos do departamento de Psicologia.

Apesar da competência da assessora contratada, esta consegue apenas “conter” a crise ao nível objetivo, deixando de lado a negatividade,  e não produz mudança. Poderíamos aqui usar a metáfora de Freud (1921-1980) sobre a tropa em que o general “perde a cabeça” e seu grupo fica acéfalo, perdendo sua força, antes de alcançar sua posição de alteridade.

O curso inicia um processo lento de agonia. É interessante que as falas escatológicas pronunciadas ("o defunto não foi enterrado" por exemplo) pelos envolvidos continham alguma verdade. Os professores do momento original, que nessa ocasião saíram do curso, conseguiram construir suas carreiras acadêmicas com brilhantismo, fazendo hoje parte da elite da psicologia no Brasil. Na medida em que essa instituição ou este lugar não poderia se constituir mais um objeto transitório na vida dessas pessoas, elas procuraram outras possibilidades de sonhar e quem ficou, ficou agarrado numa ilusão!

A partir dos episódios citados delineia-se o segundo período do curso que chega até o final dos anos oitenta, aproximadamente, quando se consolida o eclipse do curso e uma espécie de “guetização”  das disciplinas mais formadoras de opinião e mais voltadas para a crítica e a reflexão, com o fim das equipes de trabalho que movimentaram os primeiros anos do curso de psicologia.Houve objetivamente a diminuição da demanda, mas provavelmente essa diminuição se deu muito mais pela perda de visibilidade e indefinição do curso, do que pela abertura  de novas  IESP’s em diferentes locais do interior de São Paulo e da Grande São Paulo, que ofereciam muitas vagas para os cursos de psicologia.

Este período foi relembrado, em depoimentos utilizados na dissertação, como de absoluta decadência alimentada pelo abandono e pelo desinteresse institucional quanto ao destino do curso de psicologia e também pela incapacidade do corpo docente e dos seus coordenadores em imprimir ou configurar novas formas de atuação, seja pelo conformismo, pelo ressentimento ou pela nostalgia do tempo melhor que existia ainda há pouco  e constantemente rememorado pelos remanescentes daquela época.

Os novos professores que chegaram para substituir os colegas eram ex-alunos ou pessoas da própria cidade que deixaram de reciclar-se e de organizar-se para fazer frente à situação, talvez sem perspectivas concretas de uma carreira docente ou, pelo menos, de certa segurança de emprego, que fizessem jus ao esforço de se aprimorarem cursando uma pós-graduação ou uma especialização.

Os alunos alheios a tudo, como marca deixada pela  história  recente do país ou incentivados por alguns professores para o confronto, tornaram-se ou queixosos e submissos ou ativistas políticos, estabelecendo uma política  de confronto direto com a instituição.

O terceiro período iniciado a partir do final dos anos oitenta  mostrou-se, inicialmente,   como um período apático e de absoluta falta de transparência nas ações relativas ao curso de psicologia.

Em meados da década de noventa, vislumbram-se novos horizontes, quer quanto à possibilidade de transparência das ações empreendidas pela administração, quer quanto ao fortalecimento do corpo docente favorecido pela qualificação e pela elaboração de alguns conflitos, quer quanto ao corpo discente que, paulatinamente, começou a questionar e a renascer das cinzas.

Novo pólo identificatório ressignifica o mito originário, com uma injeção de investimentos institucionais no curso que acenam um discurso empresarial mais progressista, movimentando as pessoas através da exigência de qualificação premida pelo mercado e pelas pressões das Novas Diretrizes Curriculares e do Exame Nacional de Curso.

Entra em cena uma nova coordenação que, apesar de ser de fora do curso e imposta, não impediu o “pacto coletivo”. A coordenação anterior havia sido “demitida” do cargo por um luto simbólico do corpo discente em luto verdadeiro pela demissão de uma professora muita querida, e envolvida com a formação da consciência crítica e de sujeitos emancipados. Esse episódio é paradigmático por duas razões.

Primeiro porque faz compreender a escolha institucional empresarial que se ratifica na demissão de uma professora representante do pensamento crítico de esquerda. Este fato se torna um exemplo da diferença que não mais será suportada, marcando o limite daquilo que a instituição, a partir de então, pode suportar, produzindo novamente o silenciamento da crítica mobilizadora dos conflitos (negatividade).

Segundo, porque a partir da reparação e elaboração do luto pela professora demitida foi possível resgatar um contrato fraterno que produziu concretamente algumas mudanças:
(1)  nos alunos: uma Semana de Psicologia intensa e reflexiva e
(2)  nos professores: um trabalho intenso de elaboração de um novo currículo, afetivamente nomeado como “nosso” currículo.

“Nosso” revela algo produzido internamente, em conjunto, não externamente, como o currículo da assessora contratada para solucionar os conflitos de 1978 e que vigia até o momento, com pequenas alterações.

Para alguns dos professores o “nosso” currículo imaginariamente resgatava o mito originário da possibilidade das diferenças e diversidade em todos os níveis e poderia alavancar o grupo para o resgate da sua história e da sua singularidade. Ledo engano!  Não quiseram saber aquilo que já sabiam: a diferença estava excluída novamente!

Isto foi possível porque as expressões da negatividade foram depositadas na coordenação daquele momento. O grupo neutralizou as diferenças existentes entre seus membros, que nunca foram realmente elaboradas. Mas as diferenças existem e retornam no real quebrando a ilusão grupal (“quanto mais a gente reza mais aparecem fantasmas!”).

Convém falar um pouco sobre as diferenças grupais ou subgrupos nomeados de  “os apaixonados”, “os medrosos”  e os “subterrâneos”.

“Os apaixonados”se identificam pela paixão: paixão por ensinar, por transmitir, por permitir o novo e a diferença. Sua ética é a do desejo e da “solidariedade” (sentido habermasiano, não cristão). Aqui há o medo, mas esse medo é real, pois a realidade o merece, como nos ensinou Adorno em Educação após Auschwitz (Cohn, 1986); ele não é destrutivo quanto o é o medo que vai caracterizar o sub-grupo “os medrosos”, um medo reprimido que, ao voltar, pode ter consequências drásticas, como a submissão inconfessa e alienante. 

No subgrupo “os medrosos”, alguns membros conseguem fazer “alianças” momentâneas com os do subgrupo “apaixonados por ensinar”, mas num momento de insegurança ou ameaça de perigo, real ou imaginário, tornam-se alcaguetes, compactuando com o poder instituído.

O subgrupo “os subterrâneos” funciona numa ética cínica e perversa em que alianças são feitas com a autoridade e as alianças com os outros subgrupos só são feitas instrumentalmente, na medida em que garantem ganhos específicos para si próprios. O que gerencia este grupo, é unicamente a permanência na instituição, seja por que preço for; o seu investimento não é no curso e se mantem em posições individualistas e instrumentais, utilizando como estratégias ora do pacto grupal, ora do poder instituído. Em termos da Escala F de Adorno (Adorno, 1965), os membros do grupo  “os subterrâneos” podem ser entendidos como “manipuladores”  que aderem imediatamente ao instituído e deslocam seus impulsos agressivos para um alvo externo. No caso específico, aos professores do subgrupo “os apaixonados” mais ameaçadores e até à coordenação que não lhe interessa e aos alunos que conseguem vislumbrar esse poder oculto.

Vale ressaltar que "os subterrâneos" talvez sejam os mais adequados para permanecerem numa organização regida pela lógica do mercado, enquanto que os primeiros, nessa ótica desenvolvimentista, são identificados como ameaçadores da ordem instituída, ficando aprisionados e silenciados, apesar das suas qualificações, pelo risco real de demissão.

Apesar das diferenças internas, os professores, no momento da construção do “nosso” currículo, têm um movimento grupal. Mas, outro grande desorganizador se imiscui e novamente vê-se a repetição: o processo grupal, que iniciava e necessitava de um percurso para transpor sua gestação, é abortado.

Como isso ocorreu no nosso entender? Vejamos.

O “nosso” currículo começa sua vigência em 1999 e deveria estar sendo avaliado para que pudesse ser redimensionado no que fosse necessário. Novos operadores sócio-culturais e macro institucionais vão atravessar o grupo de professores impedindo que  essa avaliação fosse feita: mudanças na administração superior excluindo a área progressista levaram à mudanças nas coordenações de quase todos os cursos.  No curso de psicologia, em 2000, se repete o mesmo enrijecimento do final do primeiro período, com a intensificação de processos autoritários representados nos atos da nova coordenação que, como primeiro ato, “impõe” outro currículo (aqui chamado de novíssimo currículo) para começar  sua vigência em 2001. O que significava esse novíssimo currículo de 2001?

Diga-se de passagem,  o currículo estava absolutamente de acordo com as diretrizes curriculares do MEC propostas para a psicologia, ainda não aprovadas, sobre as quais havia o debate do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira da qual o CFP é parte integrante. (Jornal do CRPSP de dezembro de 2002, p.07). Entendemos que trazia em seu bojo o ranço da política neoliberal, a denegação da diferença e da pluralidade das posições individuais e apresentava um cientificismo e autoritarismo que  atravessavam todos os níveis, atingindo, inclusive a sala de aula, que sempre foi uma “brecha” de possibilidade de ampliação da consciência, mesmo em épocas em que a barbárie estava mais visível como no nosso período ditatorial. Neste momento todos ficam paralisados também na sala de aula e o medo, embora não tão real quanto era na ditadura, afeta a todos sem que possam identificar claramente sua origem.
Nesse novíssimo currículo, o que se propunha era, na realidade,  um esvaziamento da sala de aula, pois o mais importante é que os alunos estejam fazendo tarefas e coisas que não impliquem na relação professor-aluno, as quais não têm a “força” criadora da sala de aula, espaço entendido como a “brecha” institucional facilitadora da articulação dos conteúdos inomináveis, dos restos, um dos instrumentos possibilitadores de reflexão crítica. Compactuava com e representava eficientemente  o discurso hegemônico que implica na renúncia do ato de educar, gerando violência, já que acaba com o simbólico, fazendo a negatividade se patologizar e retornar no real.

As turmas existentes no curso de psicologia passam por adaptações curriculares causando até 2002 um profundo mal-estar em todos, sem que se consiga identificar exatamente onde está situado tal mal-estar. Além disso, a turma que entrou em 1999 é “cooptada” a concordar com o novo tempo do Curso de Psicologia: quatro anos! Institucionalmente transformam-se os vários cursos em semestrais e não mais anuais. Os professores do curso de psicologia, sentindo-se desrespeitados em sua competência, deixaram de participar das reuniões para “novas discussões” curriculares, embora tivessem sido convidados a participar. Na realidade, não foram discussões, mas simplesmente “comunicações” verticalizadas da nova coordenadora,  que é figura respeitada na psicologia no Brasil, mas que tem como traço de sua personalidade, no nosso entender, desqualificar aquilo que é produzido no Brasil e/ou pelos nossos alunos e professores numa ótica emancipatória, ficando atrelada a uma visão de progresso marcada pela produção científica do primeiro mundo (EUA e Canadá, principalmente). Sua função, entretanto, parece ser devidamente autorizada pela instituição.

Outro episódio significativo é que a turma que estava no quinto ano em 2000 (currículo antigo) consegue no Exame Nacional de Cursos (Provão) a classificação B colocando a instituição em terceiro lugar no ranking universitário! Para conseguir manter a nota do Provão, impõe-se para as turmas de quarto e quinto ano, a partir de 2001, os famosos “mini-cursos” tentando corrigir as supostas falhas das disciplinas e dos professores no seu ofício de ensinar. O semestre letivo se transforma num “intensivão” preparatório.

Alguns depoimentos de alunos revelam o seu mal-estar:  “[...] o provão foi algo que entristeceu não só a mim, como a todos da sala que se sentiram frustrados já que se tivéssemos aula teríamos nos saído melhor, pois as questões englobavam o que estava sendo ensinado[...]” “[...] terrível! o primeiro semestre foi totalmente dedicado a esta porcaria de testes. De repente começou um menosprezo gigante sobre o que nós havíamos aprendido durante quatro anos [...] a pressão deixou a todos nervosos [...] hoje relendo as questões me lembro de que tudo foi falado no decorrer do curso e que, portanto, as pressões fizeram-nos perder um ótimo final de curso[...]” “[...] horrível porque os mini-cursos destituíram meu saber, foi como se tudo o que aprendi não valesse para fazer essa prova. Fiquei nervoso e fui mal [...]”

Apesar desses mini-cursos, as turmas de quarto e quinto de 2001 e 2002, não mantêm o B da primeira turma que fez o provão, tendo obtido dois C’s consecutivos. Obviamente há responsabilidade dos professores nisso, porém, premidos pela necessidade do emprego ou se transformaram em “meros executores” da ordem implicitamente dada ou só puderam fazer resistência no seu silenciamento, o que também implicava num medo real.

O primeiro movimento de apatia que se instaurou no início de 2001 resultava da inviabilidade do novíssimo currículo e o espaço que teria nele uma visão emancipatória. Entendemos que se instalou uma incongruência entre os diferentes subgrupos, especialmente o subgrupos “os subterrâneos”  que gerou alianças com a coordenação, rompendo explicitamente com o “pacto do coletivo”, trazendo à tona uma desagregação absoluta e a instauração de relações paranoicas entre todos os professores. A desagregação vivida e sentida vai sendo transmitida na sala de aula, cristalizada na dificuldade de “adaptação” ao novo currículo, às novas disciplinas e à nova forma de ensinar com modernas tecnologias “fast food”. Um cunho disciplinador, que vigiava e controlava a tudo e a todos, não deixava brecha para a crítica, que a partir daí é (re)lida como oposição institucional ou como boicote do projeto institucional. Generalizadamente se vivencia um “mal-estar” que se desdobra na formação dos alunos como um “não-aprender” e como uma “correria” na produção de tarefas e atividades.

Na realidade, a apatia, o silenciamento e a desagregação inicial foram necessários  diante  da ameaça de morte e de exclusão, mas foram sendo superados, num segundo momento, onde se começou resgatar a pequeníssima brecha da sala de aula, sustentada através do ato educativo. Foi possível aos professores do subgrupo “os apaixonados” perceber que a brecha estava neles mesmos, na paixão de ensinar e no seu sonho. Neste espaço e nas diferentes disciplinas que restaram  foi-se fazendo a crítica ao cientificismo e ao autoritarismo, pagando-se os riscos desta posição.

O deslocamento do  mal-estar fica cristalizado no currículo novíssimo e também no boato que circula: os subgrupos “os apaixonados”  e “os medrosos” são “inimigos”  do subgrupo “os subterrâneos”  e da coordenação. Dos diferentes estratos institucionais pode-se ouvir nas entrelinhas do discurso: quem estiver conosco fica, caso contrário sai (esta fala já havia sido explicitamente dita no passado!).

Entretanto, aquilo que é destinado a não ser falado  e que se presentifica em todas as situações cotidianas como aquele mal-estar inominado, vai gerar duas explosões de vida do corpo discente.

Na primeira explosão os alunos no final do primeiro semestre de 2001, escrevem três cartas que nomeiam o mal-estar e das quais retiramos alguns trechos expressivos:
(...) A fim de espremer em menor tempo um grande volume de informações, o atual currículo (o novíssimo) impõe, desta forma, aos professores e alunos o cumprimento de prazos e programas de aula num ritmo estressante e alienante.  Envolvidos com tantas exigências, os alunos não têm tempo para pensar e refletir criticamente sobre a práxis, facilitando, sem se dar conta, a tomada de decisões por instâncias alheias às suas reivindicações e direitos, devido ao esgotamento físico e mental a que estão sendo submetidos como ‘cobaias’, cujos comportamentos indicarão, ao final da ‘experiência’ executada pela coordenação do curso, se a mudança curricular valeu a pena de fato.  Não entraremos neste jogo! Entendemos que a educação é uma ferramenta para a prática da liberdade, devendo gerar indivíduos críticos e preparados para socorrer uma sociedade em crise. Por isso, queremos ser ouvidos! Queremos um programa de aulas condizentes com o tempo de que dispomos diariamente para estudar. E exigimos novas mudanças curriculares para o ano que vem, desta vez sim, considerando os anseios dos alunos da Psicologia. (09/05/01). [...] não queremos uma formação tecnicista! Se a técnica é importante, é inegável que o embasamento teórico também o é, integrando o saber acadêmico à prática, na produção do conhecimento” (17/09/01).
[...] Não será o aluno, cliente desta instituição, capaz de avaliar o atual currículo, verificando sua eficácia dentro da realidade prática das salas de aula e fornecendo indicadores sobre a necessidade de possíveis mudanças? Afinal, o aluno tem voz nesta universidade? (11/06/01).

A coordenação responde às reivindicações com argumentos convincentes, repetindo o mesmo padrão institucional relatado anteriormente no início da segunda década do curso, após a greve dos alunos: abafamento das reivindicações tomando as tentativas de participação e de análise crítica dos alunos como um equívoco facilmente esclarecido com uma resposta, de forma absolutamente coerente com o discurso institucional da empresa.

Um dos membros do subgrupo “os subterrâneos”  cria a ilusão de que através de uma carta  dirigida ao Diretor do Centro apoiando a coordenação e seu novíssimo currículo poderia salvar sua pele e tomar o lugar da lei. Pede adesão aos professores para assinar a carta e envia flores à coordenação em nome da totalidade dos professores, cuja grande maioria sequer sabia do mimo. Nessa carta, algo chama a atenção e irrita: “[...] fizemos conquistas incríveis neste último ano e meio, depois da vinda da atual coordenadora. Estamos reconquistando o valor e o respeito do início do curso, nos anos 70.[...]”.  É uma leitura surpreendente, pois o que se repete é o abafamento das diferenças e das contradições, porque em mais nada lembra o início do curso, inclusive pelo pequeno número de alunos (cerca de 130) se comparado com os 1200 alunos dos anos iniciais!

Como abafado, o mal estar permanece e começa emergir no descontentamento, no sarcasmo e na apatia dos alunos e dos professores do subgrupo “os apaixonados” até culminar  numa segunda explosão discente no final do segundo semestre de 2002, agora explicitamente contra a pessoa da coordenadora, pois se dão conta de que o mal-estar de todos é de sua (dela) responsabilidade na condução do curso e na imposição do novíssimo currículo.

Realizam-se algumas assembleias de alunos de onde se tiram algumas reivindicações e ações: querem fazer panelaço pelos corredores dos campi com faixas e camisetas escritas: “Fora!”; “Queremos que nos ouçam, por favor!”; “Queremos ter orgulho de pertencer ao Curso de Psicologia desta Universidade!” e assim por diante.

Ingenuamente, alguns professores, justamente “os apaixonados”, acalmam os ânimos dos alunos mais ativistas esclarecendo-lhes que a questão não pode se tornar pessoal, mas sim que se trata de uma concepção de currículo que está em jogo e precisa ser questionada.

Hoje, afastados dos fatos tão impactantes e podendo analisar objetivamente os mesmos, pode-se entender  que essa atitude  foi um balde de água fria no movimento, que se paralisa, perde na intensidade, dilui-se em nada, ou melhor, culmina com a demissão de professores respeitados pelos alunos. Assim, as (in) conclusões são:

É pura ingenuidade e pura ilusão da paixão tratar através do diálogo, relações desiguais de poder;

O caminho trilhado pelo dispositivo institucional e suas escolhas, levam à desvitalização do espaço de produção criativa no ensino e na formação;

Alunos e professores não conseguiram sustentar-se num movimento que produzisse mudanças qualitativas: uma dialética sem síntese;

As marcas das explosões de vida foram subjetivas, narcísicas e alienadas. Quando defrontados com as respostas institucionais, os alunos não sustentaram suas análises críticas e o movimento se esvaziou; os alunos ficaram à deriva, buscaram a paixão e  a força no subgrupo “os apaixonados”, mas não se deslocaram de sua alienação básica, sempre buscando um senhor que desse corpo e morada às suas subjetividades fragmentadas;

Todos, alunos e professores se aproximaram do subgrupo “os medrosos” e ficaram “rebocados num merengue” como diz o famoso tango “Cambalaches” de Enrique Santos Discépolo.

A pergunta que ficou no ar: “era o fim do começo ou o começo do fim?”




[1] Trabalho originalmente realizado por Borges, Fátima Gonzalez Mosfp; Henriques, Wilma Magaldi e Olmos, Jozélia Regina Díaz para o III Congresso Norte-Nordeste de Psicologia – “Construindo a Psicologia Brasileira: Desafios da Ciência e da Prática Psicológica”, realizado na Fundação Espaço Cultural, em João Pessoa/PB, de 27 a 31 de maio de 2003 na atividade Experiência em Debate, sob o título IMPACTOS NOS PROFESSORES E ALUNOS DE UM CURSO DE PSICOLOGIA ATRAVESSADOS PELAS REFORÇAS CURRICULARES.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor et alii. La Personalidad AutoritáriaBuenos Aires, Proyección, 1965.
COHN, Gabriel. Theodor W. Adorno. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986.
FREUD, S. (1921) Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund FREUD; v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
KAËS, R. O grupo e o sujeito do grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

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