Hoje resolvi
iniciar este blog. Confesso que sou absolutamente desprovida de qualquer
conhecimento dessa tecnologia e vou fazê-lo empiricamente. Por tal motivo já
começo pedindo desculpas pelos possíveis deslizes que vou cometer. De qualquer
forma alguma coisa vai ficar correta. Afinal de contas por que uma senhora, já
considerada idosa segundo as inúmeras classificações disponíveis, não
conseguiria publicar seus escritos num blog.
Então vamos lá!
Deixe-me fazer as apresentações iniciais.
Sou aposentada, separada, mas não divorciada, tenho
três netos homens e uma menina, filhos e filha de meus filhos Rodrigo e
Cecília. Sempre trabalhei na área da educação. Completei o terceiro grau em
Psicologia, e conclui o mestrado em Psicologia. Cursei outros cursos
universitários, em épocas anteriores, que não completei por inúmeras razões, as
quais, com certeza, aparecerão em alguns de meus escritos ou poderão ser
deduzidas a partir deles. Também fiz outro mestrado, inconcluso, assim como o
doutorado, inconcluso.
No início de
minha vida profissional - e já se vão muitos anos! - trabalhei como secretária
em duas empresas internacionais de grande porte e no final de minha vida profissional
trabalhei em empresa pública nacional - um dos três poderes da vida
republicana. No intermezzo, exerci atividade profissional liberal como
psicóloga clínica atuando em consultório particular.
Sou leitora ávida e também gosto de
escrevinhar. Entre minhas atividades preferidas, além destas, estão também o cinema, a dança de salão, a
música e o artesanato.
Moro sozinha, mas não sou só. Entendo
que podemos estar sós, sem a companhia física de alguém e, mesmo assim, não nos
sentirmos solitários. Então, não sofro
de solidão, pois sou uma pessoa
plena de recordações e vivências, boas e
más, alegres e tristes, profundas e supérfluas e são elas que me fizeram
procurar nas quinquilharias guardadas, tudo aquilo que trouxesse
de volta pessoas queridas, as que ainda estão entre os vivos, as que já
se foram dessa vida e aquelas que passaram por mim deixando suas marcas e
ensinamentos de qualquer espécie. Não importa.
Importa o que brindaram com suas presenças deixando em mim um rastro que
permanece indelével, até hoje.
De muitas delas não tenho mais a
presença física porque já partiram no trem da vida, mas as tenho na
memória. Outras, embora morando muito
longe, foi possível localizá-las. Hoje temos ferramentas de
rastreamento muito interessantes. De outras ainda tenho o prazer da
convivência. Mas, de qualquer forma será através das minhas lembranças que
poderei retomar alguns episódios em que muitas delas estiveram presentes.
A memória é uma coisa incrível. É
capaz de transformar sapos em príncipes, anjos em demônios, o verdadeiro no
falso, o falso no verdadeiro, o triste no alegre e o alegre no triste. Mas, apesar disso, que seria de nós se não a
tivéssemos? Dizem que é uma qualidade dos velhos e, positiva, porque mantém
viva a chama da vida, porque ensina os jovens alguma coisa que já se passou ou
que já deixou definitivamente a convivência social. É um documento importantíssimo, mesmo que
defeituoso. Digo defeituoso porque a
memória muitas vezes deforma aquilo que vivenciamos. Mas que outro tipo de registro não deforma
aquilo que se diz ou aquilo que aconteceu?
Por acaso, quando alguém escreve uma ata, faz um monumento, assina um
tratado ou coisa parecida, também não está deformando o acontecimento, na
medida em que está dando uma versão parcial do mesmo? Mesmo a máquina de
fotografia. Ela reduz um fato a um ângulo desejado pelo fotógrafo e do qual
teremos apenas o aspecto registrado. Acho que esse é um problema insolúvel e
sobre ele já escrevi um bocado quando estava na Academia. Ao longo desse percurso que pretendo fazer
pela minha vida, terei oportunidade de colocar minhas considerações sobre essa
maravilha que é a memória. Por enquanto
quero deixar registrado que me basearei nela e, é claro, quando tiver alguma
outra forma de registro (fotografia, notas, desenhos, músicas, vídeos,
depoimentos, publicações e etc.) também a utilizarei para deixar o
acontecimento o mais verídico possível, pelo menos naquilo que foi registrado
pela máquina e pela memória.
Dizem que o tempo da memória é o tempo de quem tem um
compromisso com a verdade e se acha disposto a olhar para o passado, como
escreveu Bobbio em seu livro O Tempo da
Memória – De Senectude e outros escritos autobiográficos, publicado pela Editora
Campus, Rio de Janeiro, em 1997. O título De
Senectude é uma referência ao livro clássico de Cícero, que também escreveu
sobre a velhice depois dos 60 anos de idade.
Dizem também que a memória segue um
caminho inverso ao do tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm à
tona de nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos
ocorreram. De qualquer forma, é bom ir
desencavando tudo o que vem à tona, muitas vezes de forma involuntária. Sobre
isso falarei no decorrer dos escritos.
Bem, esta introdução é para alertar a
quem quer que venha a dedicar seu precioso tempo a ler essas histórias, que
muitas lembranças estão soltas e que, muitas vezes perdi o fio que poderia
ligá-las na tessitura de minha vida. Com
certeza alguns furos nesse tecido serão inevitáveis. Quando isso ocorrer, vou à
busca de outras memórias, de quem vivenciou o fato comigo ou dele participou de
alguma forma. Acho que assim farei
justiça a todos aqueles que estiveram presentes e compartilharam comigo momentos
importantes de minha vida.
Li alhures que o um diário é um aborrecimento a quem
o faz, mas que quando feito acaba por constituir-se uma grande alegria e dá
para entender bem o porquê. Eu sempre
comecei a escrever um diário, mas nunca dei continuidade e não sei por qual
razão já que sempre guardei muita coisa: papeizinhos, pétalas de flores
(algumas com bilhetinhos), guardanapos, programas de teatro, entradas de
cinema, pensamentos, ideias pensadas, projetos idealizados e não realizados,
folhas escritas nas mais diversas ocasiões, algumas vezes – a maior parte – sem
data ou qualquer referência, enfim, tanta coisa reunida aleatoriamente. Já fiz
várias faxinas e joguei muita coisa fora, mesmo assim ainda tenho muita coisa.
Mas confesso que não sofro de “TOC”[1].
Entre as coisas que gosto de fazer esqueci-me de
dizer que fotografar também gosto, registrando quase todos os acontecimentos,
mas sou péssima fotógrafa, apesar disso dá para se ter uma ideia do evento.
Muitos deles não foram fotografados porque ainda não tinha máquina fotográfica
ou a mesma estava quebrada. Hoje, com as câmeras digitais tudo é mais fácil,
mesmo assim minhas fotos são bem ruinzinhas!
Tenho uma inveja do Claudio Edinger, do Sebastião Salgado, e de outros
maravilhosos fotógrafos.
Declaro aqui que sempre quis organizar meus
papéis. Muitos deles até consegui
colocar numa certa ordem cronológica. Por exemplo, os textos escritos para
comunicações orais em congressos, estão quase todos catalogados e guardados em
pastas, além de citados no meu Lattes.
Um dos meus projetos era compilar meus textos em
forma de livro ou num “blog”, nosso diário virtual. Mas aquilo que não está
escrito é mais difícil de organizar. Às vezes uma foto pode evocar muitas
lembranças, mas não só as fotos têm esse poder.
A música, o perfume, a visão de uma árvore, de uma paisagem também o
tem. Não foi assim com as madeleines e com a lousa de Proust [2]?
Não creio que minha vida tenha algo
de excepcional, nem que ela é diferente das demais. Nunca fiz ato heroico, nunca fui reverenciada
como superior, ao contrário, sempre tive uma vida bastante comum: momentos bons
e ruins, alguns importantes para outras pessoas, mas, no mais das vezes,
insignificante para a humanidade. Um repeteco
bastante comum das pessoas comuns da terra. Mas, como tenho herdeiros: meus
três netos (Gabriel, Guilherme, Pedro) e minha neta (Maria Eduarda), creio que
é preciso deixar para eles uma pequena mostra do que veio antes deles, o mais
longínquo possível. Por esse motivo pretendo
começar pela genealogia. Coisa difícil
porque é necessário buscar informações que muitas vezes se perderam. Estou
tentando fazer minha árvore num aplicativo chamado My Heritage, mas é bem difícil.
Rapidamente
quero dizer que pela linha materna até tenho algumas informações que recebi de
um primo distante, o José Carlos Covizzi.
Este primo mandou-me recentemente uma pequena árvore genealógica que
traz importantes revelações sobre a família pela linha materna, os Orlando e os
Borghi.
Pelo lado
paterno já é mais difícil. As memórias de
minha família paterna, a tia Albertina e a tia Helena, já não estão mais vivas,
mesmo assim vou procurar obtê-las para deixar registrado aqui neste pequeno
espaço tudo o que sei ou que me contaram sobre a família Segabinazzi e Barnabé.
Digo desde já que todos vieram da Vecchia Itália, como imigrantes. Aqui se casaram, tiveram seus filhos, alguns
conheceram seus netos e bisnetos, mas todos deixaram um exemplo que merece ser
dito aqui: o amor pela famiglia, pela terra e pelos princípios. Vou dedicar-lhes uma parte deste texto, senão
ele todo!
Este pequeno texto foi escrito num
domingo, dia 15 de julho de 2007, às 18h 03min 45seg.
[1] Transtorno Obsessivo Compulsivo:
[2] Marcel Proust
Nenhum comentário:
Postar um comentário