segunda-feira, 25 de junho de 2012

UMA LINDA POESIA DE BORGES!


INSTANTES
(Jorge Luis Borges)
 

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"



O QUE OS PSICÓLOGOS PODEM OFERECER AOS VELHOS?


O TRABALHO PREVENTIVO


Uma velhice tranqüila é o somatório de tudo quanto beneficie o organismo possibilite que o velho tenha a qualidade de vida, a aceitação e a inserção na família e na sociedade. 
Segundo Guite Zimerman (2000), a estimulação é o melhor meio para diminuir os  “efeitos negativos do envelhecimento e levar as pessoas a viverem em melhores condições”.
Para a autora, a estimulação não se refere unicamente e apenas aos  exercícios físicos, mas também à alimentação saudável, a um espaço para lazer, ao bom relacionamento familiar, enfim,

(...) estimular é criar uma postura de busca constante, de realizar atividades, de sentir-se alguém (...) para ser parte integrante e ativa de seu grupo.  É incentivar a busca de satisfação nas realizações do dia-a-dia, a fim de ampliar o mundo interno e externo, tornando-se satisfeito, ajustado, valorizado e integrado, para que não seja um peso para si, para sua família e para a sociedade.” (p. 134).

Portanto, é preciso investir numa melhor qualidade de vida, pois, ao contrário do que se pensa,  os idosos podem e devem manter uma vida ativa.
Melhor qualidade de vida deve incluir: boa alimentação, exercícios físicos e recreativos, espaço próprio que permita independência na arrumação e disposição dos móveis, espaço para os "guardados" , espaço de acolhimento e escuta pelos membros familiares e, principalmente, a aceitação do envelhecimento e respeito às limitações decorrentes dele. 
Para Bosi (1994), é fundamental ao velho rememorar o passado, pois que o  envelhecimento abre um possível período de florescimento da pessoa social, o acesso a um "saber" feito de experiência e acompanhado de lúcida indulgência.
O velho, que  já viveu quadros de referência familiar e cultural, tem a função social de rememorar o passado para que este entre de modo constitutivo no presente, revivendo o que se perdeu, as tradições, as histórias que participou, além de presentificar o que está ausente, reavivando e rejuvenescendo aquele que rememora e seu ouvinte. 
A memória alarga o presente e é guardiã da tradição, unindo o começo ao fim. Ao não permitir ao velho mostrar a  competência específica da memória, ele perde a sua função, se retrai de seu lugar e função social e isto acaba por empobrecer a todos. 

A PSICOTERAPIA

A imagem estereotipada da velhice perpassa a evolução das técnicas psicoterápicas desde o seu surgimento. A visão de Freud [1912] (citado por Zimerman, 2000), p.207) acerca da psicoterapia no velho reflete-se no seguinte parágrafo:

A idade dos pacientes tem assim essa grande importância no determinar sua adequação ao tratamento psicanalítico, que, por um lado, perto ou acima dos 50 anos a elasticidade dos processos mentais dos quais depende o tratamento via de regra se acha ausente (...).

Quinze anos após Freud ter realizado este comentário sobre a psicoterapia psicanalítica do idoso, Karl Abraham (citado por Cordiolli, 1993, p. 421) publicou um artigo contrário a Freud, sobre a aplicabilidade do tratamento analítico em idosos. Comentava que a idade da neurose, em termos de prognóstico, é mais importante do que a idade do paciente.
Pollock (citado por Cordiolli, 1993), acredita que a idade avançada, por si só, não exclui um tratamento psicanalítico. Afirma que a meta de um tratamento é fazer com que mais pessoas possam ter um presente e um futuro mais criativos e vivam uma vida satisfatória. Isto pode ocorrer em indivíduos que estejam na maturidade, na juventude ou na velhice.
Segundo Gallo (1990), no campo do atendimento psicológico durante muito tempo prevaleceu a suposição de que nada havia a se fazer pelo velho, já que durante a vida da pessoa houve um acúmulo de problemas mal resolvidos que, diante de uma expectativa de sobrevivência, não se recomendava uma psicoterapia longo e de profundidade. 
Até hoje vemos que há preferência entre psicólogos por tratamentos mais breves e centrados no problema, talvez temendo a eventual morte do paciente interrompendo o trabalho antes de seu final, resultando isso num certo “desperdício”.  Como alternativa há então os atendimentos que se enquadram como “psicoterapia suportiva” em oposição às terapias de “esclarecimento”.  Aquelas podem ser oferecidas ao longo de um tempo indeterminado, sem a exigência de uma periodicidade rígida e sem muito planejamento, possibilitando um apoio afetivo e oportunidade de interação e reflexão que podem levar ao idoso, psiquicamente saudável, a explorar seus potenciais e assim leva-lo a melhores condições de redimensionar suas possibilidades existenciais, projetos, expectativas e demandas e a aceitar suas limitações.
Uma advertência feita por Zimernam nos parece bastante importante. Trata-se da compreensão  do termo psicoterapia, que tem um “largo leque de significações que se estendem desde um simples ‘apoio’ até um sofisticado tratamento psicanalítico’” (p.208).  A sugestão é distinguir ação psicoterápica de psicoterapia propriamente dita. A primeira pode ser obtida por vários meios, por profissionais e pessoas sem muita especialização na área da  Psicologia incluindo aí o clínico, o amigo, o atendente, algum membro familiar, etc), enquanto que a segunda requer maior formalização, profissionais treinados e manejo teórico-técnico.
Entretanto, qualquer modalidade de psicoterapia, entre os vários tipos possíveis, requer alguns requisitos como o “gostar de velhos de forma autêntica e sincera”, “servir de continente da carga de sentimentos depositados pelo velho no terapeuta”, “disponibilidade”, “colocação de limites”, entre outras condições.


Referências: as mesmas do trabalho teórico sobre o Envelhecimento