Já disse em outro
texto que a memória é uma qualidade dos
velhos. Esta é uma questão complicada e digo por que: velho tem qualidade? Qual será ela?
Digamos que tem,
só para nos deixar alegres! Uma coisa é
certa e esta nos alegra. Temos, nós os
da “melhor idade”, da “terceira idade”, da “idade da maturidade”, “da velhice”
ou simplesmente, nós os velhos, podemos nos alegrar porque quase todos nós
estamos, há algumas décadas, aumentando, ou seja, não estamos morrendo tão
jovens como antes.
Lembro-me que
quando era criança considerava que minha mãe era velha para mim, apesar de ser
apenas 26 anos mais velha que eu! Minhas nonas (as vovós em italiano) tanto a
paterna quanto a materna, eram velhas “corocas” como dizíamos nós, as crianças. Não sei bem precisar o sentimento que tinha,
mas, era engraçado: tinham as crianças e tinham os velhos!
Revendo algumas
fotografias minhas, vejo que eu também parecia mais velha do que realmente
era. Não sei se eram os vestidos e a
forma como me arrumava: salto alto, luvas, bolsa, meias de nylon, e etc. O fato
é que parecia uma senhora. E só tinha 18
anos, no máximo!!!
Estas fotos, por
exemplo, revelam o que eu disse: numa eu tinha apenas 17 anos incompletos e
estava pronta para ir à Missa das 11 h na Igreja da Consolação, em São Paulo.
Claro que o rosto é jovem, mas o semblante é de uma senhora, jovem é claro, mas
uma senhora. Comparem a foto aos 17 com a foto aos 71, tirada no dia de meu
aniversário, num pequeno jantarzinho que fiz para minhas amigas.
Hoje as roupas são
jovens, coloridas, estilosas, fashions
como se diz. Uma senhora pode se arrumar de maneira a parecer menos idade do
que realmente tem. Ou será que é a mídia que nos faz ver-nos assim? Ou os botox
e as plásticas ou mesmo o photoshop?
Realmente fica difícil
dizer a idade das pessoas hoje em dia. Há algumas, infelizmente, devido às
vicissitudes de suas vidas, à exclusão social, ao trabalho árduo e duro, às
pencas de filhos e às poucas oportunidades que tiveram, que parecem muito
velhas, quando na realidade, cronologicamente falando, são jovens senhoras de
49, 50 anos, que parecem ter 70 ou mais.
Dizem que eu sou
uma dessas últimas. Talvez aos olhos dos outros realmente pareça mais jovem do
que sou. Estou com 72 anos vividos, mas dizem que aparento no máximo 65. Nunca
chegaram, nas suas avaliações, aos 66, e poucas chegaram aos 69. Mas eu, euzinha mesmo, sinto as diferenças,
principalmente as físicas, sobre as quais vou falar qualquer dia destes.
Eu digo e assino:
nunca fiz uma plástica, nem coloquei botox, ou fiz photoshop em minhas fotos.
Tudo o que meu corpo e meu rosto trazem, são as marcas dos anos vividos e ponto
final. Tenho uma fraqueza: pinto os cabelos. Estes são os únicos que não são
mais naturais. Ainda não consigo deixa-los brancos. Estou ensaiando!
A verdade é que
hoje o limiar da velhice deslocou-se em algumas décadas. Ter setenta anos hoje é estar velho apenas no
sentido burocrático, como ter direito a uma aposentadoria. Antes, setenta anos era o atestado de
velhice, quando se chegava aos setenta, porque muitos morriam muito antes.
No censo
brasileiro, os velhos aumentaram muito [1] e, dizem, melhorou a qualidade de vida deles. Muitas doenças estão sob controle; os velhos
fazem ginásticas, dançam, se arrumam e se vestem como se tivessem 30 anos ou
até menos.
Mas, é claro, do
ponto de vista psicológico é outra coisa. Há pessoas que são velhas aos 20 anos
e outras, como eu, por exemplo, que se consideram bem mais jovens do que
são! Eu adoro passear, dançar, ler,
ouvir música, estar num ambiente alegre e enriquecedor, escrever e etc. Tenho
um astral alto. Mesmo que algumas vezes fique triste e um pouco chateada de
estar longe de pessoas queridas, como meus netos e neta e filhos, eu tiro de
letra e logo me alegro novamente.
Não gosto nadinha
de pessoas velhas que são cheias de receios e que acham que suas vidas já se
acabaram, em vários aspectos. Também não gosto de estar com pessoas que adoram
falar dos outros sem olharem a si próprias, ou que adoram criticar os outros,
mas são incapazes de voltar seus olhos para dentro de si mesmas. Entretanto,
adoro "jogar conversa fora", "contar causos", recordar, ver
fotos, jogar joguinhos e paciência na internet, ou simplesmente fumar meu
cigarrinho, bem descontraída, de
preferência com uma taça de vinho, ou com uma cervejinha bem gelada, em
companhia agradável!
A tristeza que às
vezes me invade é muito triste mesmo! Um misto de saudade, de arrependimento,
de ter feito coisas que não deveria ter feito ou deixado de fazer as que
deveriam, de não ter como remediar aquilo que foi feito, principalmente quando
as pessoas atingidas já não estão aqui comigo.
Não sei identificar qual é o sentimento sentido, mas é muito ruim. O choro às vezes alivia, outras vezes causa
mais tensão! Depois vem a reflexão. Essa
é racional, avaliativa e de certo modo abafa o que foi sentido. Mas é
importante poder refletir e encontrar soluções ou elaborar psicologicamente
aquele sentimento não identificado quando sentido.
Muitos velhos
dizem que não temem a morte. Penso que ao refletir sobre ela como um fato
inequívoco da existência — e eu o faço constantemente já que me considero uma
"existencialista", não há o que fazer: somos seres finitos e
morte-vida é uma única verdade, como tese e antítese. É o ímpeto que deve nos
impulsionar para viver a vida o mais intensamente possível, o mais propriamente
possível, no dizer do filósofo Martin Heidegger, um dos meus preferidos, apesar
de toda controvérsia de sua ligação com o nazismo.
Mas quando falamos
da nossa própria morte como fim da nossa vida, isto é outra coisa: é duro saber
que, retomando a bela metáfora de Bobbio (O tempo da Memória. De senectute e outros escritos
autobiográficos. Editora Campus, Rio de Janeiro, Prefácio de Celso Lafer, p.XXVIII), percebemos
que vamos descendo a escada da vida de degrau em degrau e, por pequeno que este
seja, sabemos que não só não há volta como também que o número de degraus que
temos pela frente é sempre menor. O bom é que não sabemos quantos degraus têm a
nossa vida!!! Ainda bem. Como não creio na hipótese de outra vida após a morte
ou de eventuais recompensas noutra vida que não nessa que vivo, tenho
dificuldade em aceitar minha própria morte, acho que como todo mortal. Fico bem triste de pensar que não poderei
mais ver meus filhos e netos e neta, não poderei mais apreciar o sol, sentir o
cheiro das rosas, acariciar meus gatinhos [2] , bater um “papo” com o meu
papagaio, o Paco [3], ler um livro, escrever alguma bobagem. Enfim... acho que é muito triste. Sobre isso também quero dedicar uma parte
desse meu escrevinhar.
Fora essas
esquisitices, que acredito acometam qualquer ser humano não só os velhos, tudo
é maravilhoso, com exceção, é claro, dos disparates que os homens ainda cometem
contra si mesmos e contra a natureza como um todo. Fico abominada com qualquer
tipo de exclusão e violência, embora muitas vezes estejamos enredados nelas sem
nos darmos conta!
Voltando à
velhice. Há todo um temor, às vezes invisível e indizível, no que diz respeito
à forma de tratamento aos velhos. Como
devemos chama-los? Pessoas da terceira idade, da melhor idade, idosos ou
simplesmente velhos? Eu opto por velhos
principalmente para resgatar algo que tornou pejorativa a palavra.
Sabe-se que as
palavras são prenhes de significados emocionais e conceituais, ou pré-conceituais melhor dizendo, e que têm
muito a ver com uma certa exclusão pelos
mais jovens e até pelos próprios velhos, já que temem a velhice pela sua marca
de incapacidade e isolamento. Alguns velhos se auto justificam: "- estou com 80 anos, mas com um espírito de
20!". Por que acham que é melhor ter espírito de 20, "do que ter um espírito maduro ou velho,
capaz de ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos
que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição", como bem
escreveu Lya Luft em seu lindo livro
Perdas e Ganhos (Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 128). As pessoas mais jovens e os próprios velhos,
a maior parte das vezes, se decretam acabadas, sem a menor possibilidade de
sonhar, de brincar, de amar, de serem felizes, simplesmente porque seu corpo
mudou, suas rugas aumentaram, sua pele não é mais translúcida, seus cabelos
embranqueceram!
Mas, sabiamente,
velho é aquele que pode dizer o que pensa, claro, sem ferir ou magoar as
pessoas - coisa própria dos chamados jovens -, sem medo de errar, embora muitos velhos ainda
temam posicionar-se em várias questões.
Para mim, velho é
aquele que tem o que contar. E eu tenho muito!
[1] Segundo o
PLAS 2009-2012 (Plano de Assistência
Social) no município de São Paulo, “a
população com idade igual ou superior a 60 anos que hoje é de 1.267.929 passará
a ser em 2020 de 1.929.200 (...) segundo o índice de envelhecimento produzido
pela Fundação Seade para 2010 (...) as maiores percentagens de pessoas com mais
de 60 anos estão nos distritos considerados mais ricos da cidade, enquanto nos
mais pobre a proporção anda é muito baixa”
[2] Agora só minha
gatinha Missiko Branca. O Missiko Preto desapareceu em 2009. Nunca
mais soube dele, provavelmente o roubaram porque ele era muito manso e
carinhoso. Espero que esteja numa casa em que receba os cuidados que eu sempre
tive com ele.
[3] Meu querido
Paco se foi em